
Segredos e Surpresas

ROBIN  JONES GUNN

Serie Cris  2


Que outra explicao ela teria para, de repente, ir morar com a famlia na Califrnia? Como explicar o interesse que o rapaz mais cobiado da escola comea a ter
por ela? a facilidade com que est sendo bem aceita pelas novas amigas? Mas todas essas novidades guardam tambm muitos "segredos e surpresas". Logo, logo, Cris
percebe que os sonhos podem virar pesadelos. Primeiro, ela descobre que no est de mudana para a praia onde seus tios ricos moram, mas para uma cidadezinha mais 
para o interior chamada "Escondido". Na escola, toda vez que encontra com o Ricky, o "gato" que todas as suas colegas gostariam de namorar, acontece algo que a deixa 
completamente sem graa. Suas novas amigas so muito legais e divertidas, mas uma delas acaba envonvendo as outras numa tremenda confuso com a polcia. 
Ser que ela vai conseguir fazer com que seus sonhos virem realidade? Ela deve ou no deve buscar a ajuda de Deus nos momentos difceis? 

Editora  Betania
Digitalizao: deisemat
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      Paula, Minha Amiga
1
      
      Cris Miller, alta e esbelta, bateu ansiosa  porta da casa de sua melhor amiga.
      "Vamos, Paula, abra logo essa porta!" murmurou agarrando a sacola amassada da Disneylndia. Estava usando um short preto e uma camiseta amarelo-canrio que 
comprara na Califrnia. Isso a fazia sentir-se ainda na praia, e no em casa, no Wisconsin. To logo a porta se abriu, Cris exclamou:
      - Surpresa!
      Mas foi a me de Paula que veio atender.
      - Cristina? disse um pouco hesitante.
      - Ol! A Paula est?
      - Entre, querida! Quase no a reconheci, com o cabelo cortado assim curtinho. Quando voc chegou?
      - Ontem  noite.
      - Pensei que fosse ficar com seus tios at o final das frias.
      - Eu ia, mas meus pais me fizeram voltar mais cedo pra ajudar na mudana e tudo o mais.
      - Ainda no d para acreditar que eles vo mesmo vender a fazenda. Mas no os culpamos. Essa crise financeira tem sido difcil para todos ns, disse, abanando 
a cabea.
      - Eles lhe contaram que vamos mudar pra Califrnia? perguntou Cris, animada.
      - Sim, e a Paula j perguntou se pode passar as prximas frias l com voc.
      - E pode?
      - Ela est no quarto. Por que no pergunta a ela?
      Cris passou pelo corredor com o corao disparado. Estivera fora quase dois meses, e tanta coisa havia mudado... Ser que Paula mudou? Ser que deveria bater 
ou simplesmente entrar?
      Optou pela abordagem surpresa. Entrou devagarinho no quarto, que estava com a porta aberta. Paula estava sentada na cama, de costas para a porta e com o rdio 
ligado bem alto, de modo que no ouviu os passos da amiga.
      Aproximando-se da beira da cama, Cris inclinou-se, ficando bem pertinho de Paula, e gritou:
      - Surpresa!
      Paula caiu da cama de susto, derrubando o telefone da mesinha de cabeceira.
      - Cris! berrou, dando um pulo e pegando um travesseiro para jogar na amiga. Voc quer me matar de susto?
      O cabelo loiro, comprido e liso de Paula caiu sobre o seu rosto, e ela agarrou outra almofada. Ficaram fazendo guerra de travesseiros at que Paula interrompeu 
a brincadeira, em meio s risadas de Cris.
      - Espere um instante! Espere a! disse ela, pegando o telefone que estava tocando. Al. Al... Tudo bem! Ela liga de novo, acrescentou rindo.
      As duas amigas se jogaram sobre a cama, respiraram fundo e olharam uma para a outra. Paula ainda tinha aquele rostinho de beb, com bochechas redondas e rosadas. 
Entretanto algo mudara em seu olhar, fazendo com que parecesse mais velha do que da ltima vez que Cris a vira.
      - Cris! Olhe s pra voc! Est to bronzeada! E o seu cabelo... nem d pra acreditar! Voc disse que estava curto, mas est to claro!  efeito do sol?
      - Sim. Ou talvez da gua salgada. No sei. E ento? Sentiu minha falta?
      - Se senti! No d pra acreditar como voc est diferente! De repente a expresso de Paula ficou sria.
      -  verdade que seus pais venderam a fazenda e vocs vo mudar pra Califrnia?
      - Sim! disse Cris, radiante. No  bom demais? Quando meus pais telefonaram dizendo que eu tinha de voltar mais cedo, pensei que tivesse acontecido alguma 
coisa horrvel. No esperava que eles me dissessem que iramos nos mudar pra Califrnia!
      Paula puxou a barra desfiada do short jeans.
      - Comece ajuntar dinheiro para as prximas frias, Paula. Quando voc for me visitar, vamos nos divertir demais! Vou pedir a minha tia pra nos levar pra fazer 
compras, e vamos fazer churrasquinho na praia, com os meus novos amigos, e voc vai adorar o Ted, Paula.  o cara mais fantstico do mundo!
      Paula deu um sorriso amarelo, educado. Cris parou.
      - O que foi? Algum problema?
      - Nada. Continue. Voc estava dizendo como est apaixonada por esse Ted.
      Cris deu uma risadinha.
      - Ele me deu flores, Paula! Quando vim embora ontem, ele me surpreendeu com um buque enorme de cravos brancos, e depois... Cris fez uma pausa e indagou: Paula, 
qual  o problema? Diga...
      -  que voc vai embora de novo, respondeu a outra fungando, e no est nem um pouco triste com isso!
      - Que  que voc quer dizer?
      Cris tirou a sandlia e prestou mais ateno  amiga.
      - Todas as cartas que escreveu da Califrnia nessas frias pareciam maravilhosas. Voc ficava falando dos lugares fantsticos que estava conhecendo e das coisas 
que sua tia comprava pra voc ... Era como se todos os seus sonhos estivessem sendo realizados, e eu aqui parada, dia aps dia, com um tdio doido.
      - Mas Paula, nem tudo foi to perfeito assim. Aconteceram tambm algumas coisas muito tristes. No foi s restaurantes chiques e aventuras inusitadas. Tive 
de crescer muito.
      Ela parou um instante, lembrando da morte do Sam, das vezes em que se sentiu como um peixe fora d'gua e das inseguranas que experimentou no relacionamento 
com o Ted.
      - Mas Cris, mesmo assim voc teve umas frias de sonho. Confesse! E agora est-se mudando pra l e nem finge estar triste!
      - Bem, estou triste por deixar voc, mas voc ir passar as prximas frias comigo. No v por que estou to empolgada com essa mudana?!
      - , mas mesmo assim...
      O telefone tocou e Paula atendeu aborrecida.
      - Oi!  voc! disse Paula em tom mais alegre. Sim, sinto muito. O telefone caiu da mesinha. O qu?  mesmo? Hoje  noite?! Sim, claro que posso. Quem?  mesmo? 
Ele  um CMG. Com certeza estarei l. Tenho de desligar agora. Estou com visita. Tudo bem. Tchau.
      Cris sorriu, mas sentia-se preocupada. Com quem Paula falara, que a deixara to empolgada assim de repente? Estava to chateada ainda h pouco...
      - Quem era? perguntou.
      - Melissa. Voc no a conhece. Ela trabalha na Dairy Queen. O irmo dela  um CMG; sabe o que  isso?
      Os grandes olhos azuis de Paula pareciam os de uma boneca.
      - No, no sei, declarou Cris, deixando transparecer a chateao.
      - Ah, disse Paula, com ar brincalho.  um cdigo que eu e Melissa inventamos. Significa "Cara Muito Gato". Ele vai estar na festa da Melissa hoje  noite. 
Olha, tenho uma foto dele. No  um CMG? perguntou, mostrando uma fotografia de um rapaz numa moto, com os braos cruzados.
      - Qual a idade dele? perguntou Cris, em tom maternal.
      - Ora, Cris, ele s tem dezoito anos, respondeu Paula, jogando o cabelo para trs.
      - Paula!
      - O qu?
      - Voc tem s catorze anos.
      - Completo quinze daqui a dois meses, retrucou a outra, pegando a foto de volta.
      - Bem, mesmo assim, Paula...
      - O qu? perguntou ela, encarando Cris com os lbios apertados.
      - Deve haver algum outro cara por quem voc possa se interessar.
      - Ah ? Quem, por exemplo?
      - Bem... no sei! Mas no acho muito legal voc se envolver com um cara de dezoito anos.
      - Ah, no acha no? E o Ted? Fiquei pegando no seu p quando voc disse que estava saindo com um surfista de dezesseis anos, l da Califrnia, cujo melhor 
amigo morreu de overdose?
      - No foi overdose, Paula. Sam foi atirado contra o quebra-mar quando fazia surfe.
      -  isso a. Surfando  noite, e to doido que nem sabia o que estava fazendo! O que acha desse caso, Cris?
      - Paula, isso aconteceu com o Sam. O Ted no  assim. Ele  cristo. E agora eu tambm sou crist, explicou Cris com raiva e entre dentes, mas sentindo-se 
uma boba por estar discutindo daquele jeito com sua amiga de infncia.
      - E o que voc quer dizer com "Eu tambm sou crist agora"? perguntou Paula, arremedando-a.
      Cheia de sentimento de culpa, Cris recuou, tentando pensar numa resposta.
      Grande crist voc ! Gritando com sua melhor amiga... um verdadeiro cristo no maltrata os amigos.
      - Paula, disse Cris suavemente, sinto muito. Vou tentar comear de novo. O que quero dizer quando afirmo que agora sou crist  que entreguei meu corao e 
minha vida a Jesus
      Cristo.
      As duas sempre conseguiam conversar sobre qualquer assunto, mas agora Cris sentia-se frustrada e insegura ao tentar explicar algo que nem mesmo ela entendia 
bem.
      - Toda minha vida eu senti Deus perto de mim; voc entende? Paula acenou levemente com a cabea.
      - Meus amigos da praia explicaram que isso no bastava. Eu precisava entregar minha vida ao Senhor. Abrir a porta e deix-lo entrar. Ento pedi que Deus perdoasse 
todas as coisas erradas que eu tinha feito e convidei Jesus a entrar em minha vida. Entreguei a ele todo o meu corao.
      Paula apertou os grandes olhos azuis.
      - E o que significa isso? Voc vai virar freira ou algo parecido?
      - Claro que no! respondeu Cris, jogando uma almofada em Paula. No sei explicar direito. Deus no est apenas perto de mim; agora ele est dentro de mim.
      - Que bom! exclamou Paula em tom suave, porm, distante. Fico contente por voc, Cris. Mesmo. Parece que tudo na sua vida est dando certo.
      - Acho que sim. Ainda tenho tanto a aprender! Os meus amigos da praia so super chegados a Deus, e falam com ele como se ele fosse seu melhor amigo. Eu ainda 
no me sinto assim. Mas tambm faz s uns dois dias que o aceitei, acrescentou Cris com um sorriso.
      O telefone tocou, e Paula atendeu no primeiro toque.
      - Alo! Oi Melissa! O qu? Ah, no! Essa msica de novo! falou Paula entregando o telefone a Cris. Escuta s.
      Cris ouviu as batidas rtmicas ecoando no aparelho. Mas no conhecia a msica.
      Paula pegou o fone de volta e cantarolou a msica com voz chorosa, debochando do som. Em seguida, disse:
      - Melissa, j to cheia dessa msica. Voc no tem nenhuma fita mais nova pra tocar? O qu? No, ela ainda est aqui. Ligo pra voc quando ela for embora. Quando? 
No sei. No vai demorar. T bem. Tchau.
      Aqueles comentrios magoaram Cris. Ela percebeu que Paula tambm fizera novas amizades nessas frias. As duas haviam mudado. As coisas no eram mais as mesmas 
entre elas.
      Paula olhou para a sacola da Disneylndia que Cris deixara cair no cho quando entrara.
      - E ento, vai me mostrar todas as lembranas da Disney? perguntou, num tom meio azedo.
      - Ah, claro! disse Cris. Isto aqui  pra voc.
      - Legal! exclamou Paula, saltando da cama e agarrando a sacola. Nem acredito que voc tenha se lembrado de mim no seu grande passeio com o Ted, na Disneylndia!
      - Claro que lembrei de voc. Lembrei as frias inteiras. Paula encarou Cris antes de abrir a sacola, e disse baixinho:
      - Sinceramente, pensei que voc tivesse se esquecido totalmente de mim.
      - Como pde pensar isso?
      E voc, pensou em mim, Paula? Ou estava ocupada demais com a Melissa, na "Dairy Queen"? pensou Cris.
      - Adorei! exclamou Paula, puxando da sacola o bluso de moletom da Minnie. Que gracinha!  exatamente isso que eu queria. Obrigada, Cris!
      Paula vestiu rapidamente, por cima da roupa mesmo, o enorme bluso que tapou completamente seu short.
      - Que tal? perguntou, desfilando na frente do espelho. Vou usar hoje  noite na festa. Melissa vai achar o mximo! Se tivesse lembrado, teria pedido pra voc 
comprar um igual pra ela.
      Um igual pra ela! Em todo o percurso de volta para casa esse pensamento incomodou Cris como uma pedra no sapato. Fazia um calor mido naquela tarde de julho. 
O cheiro de curral permeava o ar, e um enxame de mosquitinhos chatos girava em torno de sua cabea. Chutando os pedregulhos na poeira, Cris murmurou: "Voc devia 
ter comprado um igual pra Melissa".
      timo, Paula. Muito bom! Pode ir pra sua f esta! Deixe a Melissa ser sua melhor amiga e no eu. No estou nem a. Eu vou pra Califrnia!
      Naquele momento ela se deu conta de uma coisa (que lhe doeu como um tapa na cara): teriam de deixar tudo para trs. Agora compreendia por que seus pais estavam 
to tensos na noite anterior, quando a pegaram no aeroporto e contaram que haviam vendido a fazenda. A vida de toda a famlia seria radicalmente transformada. Ela 
no moraria mais perto da casa de Paula. As duas nunca mais frequentariam a mesma escola. Tudo estava prestes a mudar, e aquela mudana seria para sempre.
      Seu ltimo pensamento abalou-a ainda mais: Mesmo se no estivssemos nos mudando pra Califrnia, mesmo se tudo ficasse como est e eu continuasse morando aqui, 
ainda assim a verdade  que acabo de perder minha melhor amiga.
      
      
"Se Pelo Menos..."
2
      
      Cris sentia-se deprimida quando pararam em frente  casa dos tios Bob e Marta, na praia de Newport, Califrnia. Ali estava ela, no lugar com que tanto sonhara, 
e no entanto sentia-se chateada com tudo e com todos. A famlia inteira parecia sentir a mesma coisa.
      A viagem fora horrvel. Foram sete dias cruzando o pas dentro de um carro. E agora, arrastando-se para dentro da luxuosa casa de praia de Bob e Marta, continuavam 
aborrecidos e reclamando, como se estar ali fosse uma espcie de castigo que lhes fora infligido.
      - Esto com fome? Com sono? A fim de um banho?
      Bob, um cinqento simptico e tranquilo, oferecia a costumeira hospitalidade, mas, em resposta, s recebia murmuraes.
      O pai de Cris, um homem grandalho, com sobrancelhas grossas e espesso cabelo castanho-avermelhado, carregava para dentro a ltima das malas. O irmo de Cris, 
David, de oito anos, plantou-se de pernas cruzadas na frente da televiso. Cris ficou ao lado da porta de vidro, que dava vista para o Oceano Pacfico. O sol j 
se escondera, mas ainda havia no cu uma faixa de nuvens douradas e claridade suficiente para divisar a silhueta de alguns surfistas pegando uma ltima onda.
      Mais  esquerda, Cris viu uma fogueirinha e um pequeno grupo em volta, provavelmente grelhando salsichas para fazer cachorros-quentes.
      Respirou fundo, sentindo a brisa do mar, e algo alm de raiva e frustrao comeou a despertar no seu interior. Fragmentos de lembranas acendiam-se em sua 
mente, como quando se ateia fogo na lenha.
      Seu corao se aqueceu, o nimo melhorou, e sentiu vontade de ir at onde estava aquele pequeno grupo na praia. Ser que eram os seus amigos? Certamente ficariam 
surpresos ao v-la! Quem sabe o Ted estaria ali? Talvez ele tivesse levado o violo e ela poderia ouvi-lo cantar.
      - Pai! gritou Cris, entrando na cozinha com uma ponta de esperana. Me! Posso ir um pouquinho at a praia?
      Seus pais estavam cabisbaixos  mesa da cozinha, parecendo esgotados e irritados. Marta, uma senhora de aparncia jovem, estava  frente da geladeira aberta, 
e Bob esquentava comida para eles, no microondas. Pela expresso de todos, era bvio que nenhuma brisa mgica do mar havia despertado sua alma como acontecera a 
Cris. Mesmo assim, ela no podia deixar de pedir.
      - S quero ir at as churrasqueiras pra ver se encontro alguns dos meus amigos. Posso? Por favor?...
      - Claro que no! retrucou seu pai. J  noite. Vocs no deixavam a Cristina sair de casa  noite quando ela esteve aqui, deixavam? perguntou, olhando para 
Bob.
      - Bem, na verdade... comeou a delicada e esbelta tia Marta. Havia outros jovens e... Bob interrompeu.
      - Voc gosta de coxa ou sobrecoxa, Norton?
      - Ah, tanto faz. Qualquer coisa est timo.
      - Cris, continuou Bob. Voc viu o novo papel de parede que pusemos na sala de televiso? Ns o trocamos na semana passada.
      - A Cris estava aqui quando escolhemos o papel, acrescentou Marta, pegando uma garrafa de gua mineral. Vocs dois gostam de laranja e maracuj?
      - Pode ser. O que voc tiver a est bom, disse a me de Cris.
      Sua voz denotava profundo cansao. O cabelo castanho, curto, era muito liso e o corpo redondo encaixava-se meio apertado na cadeira de brao.
      Cris percebeu que no tinha jeito. Se pedisse novamente para ir  praia, s causaria problemas. Seu tio ajudara a evitar o que poderia ter sido uma tremenda 
confuso. Era melhor no forar a barra.
      Abafando todas as esperanas e temores, sentou-se com os adultos, mordiscando em silncio uma coxa de galinha. Dizia a si mesma que no dia seguinte iria andar 
descala pela areia, veria todos os amigos e se sentiria viva novamente.
      
      *****
      
      Na manh seguinte, Bob, vestindo uma camisa de estampa havaiana e uma bermuda cinza, cumprimentou-a na cozinha.
      - Bom dia, "Olhos Brilhantes"!
      - Bom dia!
      J vestindo maio e camiso, Cris sentou-se na cadeira de carvalho  mesa. Os raios dourados do sol entravam pela janela.
      - Quer uma omelete e torradas de po com passas? perguntou Bob.
      - Claro!
      -  formidvel ter vocs aqui. Eu e Marta desejvamos isso h anos, disse, virando uma omelete sobre um prato com a agilidade de um especialista.
      - No sei se minha famlia sente o mesmo, disse Cris, baixinho, servindo-se de suco de laranja.
      - Ah ? Qual o problema?
      - Bem, minha me est super esquisita desde que samos do Wisconsin. E meu pai, no sei no. A viagem foi horrvel, e ns ficamos irritados uns com os outros. 
Alm disso, uns dois dias atrs meu pai disse que essa mudana era um grande erro.
      Bob colocou a omelete fumegante diante de Cris, e disse:
      - No se preocupe. Ele vai mudar de idia depois da entrevista hoje no "Laticnio Hollandale". Voc vai ver.
      - Espero que sim, disse Cris, espalhando bastante manteiga na torrada. Sinto-me meio culpada por tudo isso, acrescentou em voz baixa.
      - Por qu?
      - Porque tudo deu to errado, e queria que eles gostassem da Califrnia tanto quanto eu gosto.
      - Tem de dar tempo a eles, Cris. Voc est escrevendo essas coisas no seu dirio?
      - Que dirio?
      - Pensei que toda adolescente tivesse um dirio, disse.
      - Pois eu no tenho.
      - Ento vou comprar um para voc hoje mesmo, prometeu Bob. Voc deve tentar escrever sempre que puder. Isso ajuda a colocar as idias no lugar, em meio a todas 
essas mudanas.
      Cris ficou alguns instantes em silncio. Por que  to fcil conversar com meu tio, e no consigo conversar com meus pais? Queria poder falar com eles do jeito 
que falo com o tio Bob.
      - Obrigada pela omelete. No aguento comer mais nada. Quase no comemos durante a viagem, e acho que meu estmago encolheu.
      - Tudo bem.
      - Tio Bob, voc se importa se eu levar uns refrigerantes pra praia?
      - Claro que no.  vontade.
      - Quero ser a primeira a chegar l hoje e surpreender meus amigos, se eles estiverem por a, disse, levando os pratos para a lavadora.
      - A propsito. E o Ted? Ele escreveu, ou telefonou?
      - No. Aquele bobo! J escrevi trs vezes, mas tive de mandar as cartas para a casa da me dele, na Flrida, porque no tinha o endereo dele daqui de Newport.
      Cris puxou uma toalha de praia da prateleira da lavanderia e pegou um refrigerante na geladeira.
      - Voc acha que meus pais se importaro se eu for at a praia? Eles ainda esto dormindo, e no quero acord-los.
      - Pode deixar que eu me viro com eles. Vai ser moleza!
      Bob deu uma piscadela, e Cris respondeu com um sorriso.
      - Obrigada, tio.
      - Escuta, por que voc no volta na hora do almoo? At l o resto do pessoal dever estar acordado.
      - Est bem, concordou Cris, j caminhando em direo  porta, ansiosa para sair antes que outra pessoa se levantasse.
      - Divirta-se com seus amigos! disse Bob, animando-a.
      Ela enfiou devagarinho os ps descalos na areia dourada e correu em direo ao mar, atrada pelas ondas que iam e vinham, quebrando-se majestosamente. O cu 
se confundia com a linha do horizonte, como um manto azul sem costuras envolvendo ternamente o mundo, sustentado pelas brisas do mar.
      Estou aqui! Voltei! sussurrou ela para o cu lmpido da manh, saltitando pela praia, brincando de pega-pega com as ondas e desafiando-as a apagar suas pegadas.
      Bem, aqui vai ser meu novo lar! Claro que vou me adaptar. Vai ser muito bom se eu puder estudar na mesma escola dos amigos que conheci nas frias.
      As frustraes e a agonia de ter largado tudo e mudado para a Califrnia comeavam a desvanecer, lavadas pela mar matutina.
      Estou aqui, Ted! Voltei!
      Animada, olhou para a gua,  procura da prancha alaranjada do Ted. Cinco surfistas deslizavam sobre as ondas, mas Ted no se encontrava entre eles. A nica 
coisa que podia fazer era esperar. Estendeu a toalha sobre a areia e acomodou-se. Em seguida ouviu atrs de si uma voz feminina.
      - Cris?
      - Ol! disse Cris, dando um salto.
      - No acredito que  voc! O que est fazendo aqui? perguntou Eillian, dando-lhe um abrao e armando a cadeira de praia ao lado da toalha da amiga.
      As duas sentaram-se e logo puseram-se a conversar. Cris explicou que sua famlia tinha vindo de mudana, para a Califrnia.
      - No acredito! Quando chegaram?
      - Ontem  noite, l pelas oito.
      - Est brincando! disse Lillian, arregalando os olhos e recostando-se na cadeira.
      - Por qu?
      No vai acreditar, Cris! Voc poderia ter vindo ao nosso churrasco ontem. No sabamos que voc estava aqui. Tudo bem, disse Cris.
      - No, amiga, no est tudo bem. Voc vai morrer quando eu lhe disser uma coisa!
      - O qu?
      - O churrasco de ontem era uma despedida para o Ted. Ele foi embora hoje de madrugada pra casa da me, na Flrida!
      - No! gritou Cris.
      Todos os seus sonhos de ver o Ted novamente se desmoronaram naquele momento.
      - Se voc tivesse aparecido na nossa fogueira... Lillian abanou a cabea, e Cris se esforava para segurar as lgrimas, que comeavam a escorrer.
      - No d pra acreditar que voc estava aqui esse tempo todo! Pensar que estava a algumas quadras da nossa fogueira...
      Lillian deve ter notado as lgrimas de Cris e rapidamente tentou mudar de assunto.
      - Sabe, o Ted sentiu mesmo a sua falta depois que voc foi embora.
      Cris piscou, engoliu em seco e piscou de novo. Lillian fazia de tudo para dizer as palavras certas.
      - Sabe, ele me disse que conhecer voc foi a melhor coisa que lhe aconteceu nessas frias.
      - Verdade? perguntou Cris num sussurro.
      -  sim, falou Lillian mais calmamente. No sei por que no deu pra vocs se encontrarem ontem  noite, mas no deixe que isso acabe com sua alegria. A gente 
pode acabar pirando se ficar s pensando: "Se pelo menos..."
      - O qu? perguntou Cris, piscando e fungando um pouquinho.
      - Uma vez ouvi uma senhora falando que algumas pessoas acabam passando a vida toda falando: "Se pelo menos..." Vivem olhando pra trs e dizendo "se pelo menos 
eu tivesse feito isso, ou se pelo menos no tivesse feito aquilo..." Podemos aabar estragando a vida se ficarmos sempre desejando que tudo seja diferente. Aquela 
senhora disse que quando acontecem coisas que no entendemos, precisamos crer que Deus ainda est no controle da situao e que nada acontece por acaso. Cris abanou 
a cabea, olhando para o mar.
      - Voc d a impresso de que  to fcil confiar em Deus, Lillian. No sei se vou conseguir confiar com essa facilidade.
      - Vai ficando mais fcil  medida que a gente vai praticando o que aprende.
      Naquele instante ouviram uma voz atrs delas:
      - oo Lillian!
      Eram Trcia e Helen. As duas garotas no haviam mudado nada desde a ltima vez que Cris as vira: Trcia era mida e de cabelo escuro, e Helen, magricela e 
de cabelo loiro encaracolado, leve e esvoaante.
      -  a Cris mesmo! disse Trcia a Helen. O que voc est fazendo aqui, menina?
      As duas a abraaram e comearam a falar que ela devia ter vindo  despedida do Ted na noite anterior.
      - Poupem o flego, disse Lillian. J conversamos sobre tudo isso.
      - Voc j viu o Douglas? perguntou Helen, correndo em seguida para a beira da gua para cham-lo.
      - Estava imaginando se era ele, disse Cris, olhando o surfista alto, de ombros largos, que saa da gua.
      O cabelo de Douglas, curto e clareado pelo sol, estava arrepiado. Para surpresa de Cris, assim que ele a avistou, correu para cumpriment-la, deixando cair 
a prancha e dando-lhe um forte abrao molhado.
      - Cris! Puxa vida! Que surpresa! Como vai? Que barato ver voc!
      De repente, seu entusiasmo diminuiu.
      - Puxa! Se voc estivesse aqui ontem na despe... Foi interrompido por um coro de vozes.
      - Ela j sabe!
      - Oh! Desculpe a vergonha que eu passei!
      - E ento, conte quais so as novidades, disse Helen, mudando de assunto.
      Ficaram um tempo conversando e rindo. O sol quente, de fim de vero, castigava seus ombros. As ondas, como metrnomo desregulado, quebravam na praia no ritmo 
da conversa. Era indescritivelmente maravilhoso estar ali. Cris se perguntava se ficaria na mesma classe que Trcia, j que ambas iam iniciar o segundo ano do colegial.
      Qutro amigo, Bruce, aproximou-se de Helen e sacudiu a cabea, espirrando gua em suas costas.
      - Ah, seu "mala"!
      - "Mala?"
      Cris notou que a tmida Helen ruborizara.
      -  isso mesmo: "mala", retrucou.
      - Essa palavra  nova! Voc foi pesquisar na biblioteca? perguntou Bruce.
      - , respondeu Helen devagar, tentando raciocinar depressa. Fui  biblioteca e procurei "mala" na enciclopdia. Dizia "muito chato, pr-histrico", e tinha 
uma foto sua, Bruce, ilustrando o verbete.
      Todos caram na gargalhada, exceto o Bruce, que disse:
      - T bem, Helen, voc pediu!
      E assim dizendo, puxou-a plos punhos e gritou para Douglas agarrar seus calcanhares. Ela gritava e esperneava, mas, num instante, eles a carregaram para a 
beira da gua e, contando at trs, deram-lhe aquele "caldo".
      - Eles gostam um do outro? perguntou Cris a Trcia.
      - Quem sabe? Vivem pegando no p um do outro, mas acho que se tentassem namorar seria um desastre. Acho que o Bruce jamais a namoraria. Pra que estragar uma 
amizade to boa?
      - Meio estranho esse jeito de encarar as coisas, disse Cris.
      - Sei l, s vezes acho que esse negcio de namorar  que  um pouco estranho.  to melhor ter amizade com um monte de gente, todo mundo saindo junto, respondeu 
Trcia.
      Lillian inclinou-se para a frente e disse:
      -  porque a Trcia ainda no se apaixonou. Espere s at ela conhecer um cara que a encante. Da no vai mais curtir tanto esses passeios em grupo!
      Helen chegou arfando, ensopada mas alegre.
      - No acredito que ele tenha tido coragem!
      Lillian, Trcia e Cris trocaram olhares que diziam: Ser?
      - Vamo'l tchurma! instigou Helen. Vamos pra gua. Os rapazes j esto todos l.
      Rindo, as quatro correram juntas at a gua. Quando Cris sentira pela primeira vez as ondas da praia de Newport, no incio do vero, ficara intimidada e assustada. 
No dia em que conhecera o Ted, havia sido derrubada por uma onda e literalmente jogada aos ps do rapaz.
      Hoje, enfrentava o mar sem medo. Alta e esguia, corria em direo s ondas, furando-as com a graa e a agilidade de um golfinho. Boiando sobre a espuma no 
outro lado da crista, tinha a impresso de que seu rosto e cabelo brilhavam em meio aos reflexos de luz na gua.
      - Adoro isso! exclamou.
      Trcia e Helen riram, boiando a seu lado.
      - Voc demorou demais a aparecer por aqui, disse Trcia.
      - Vamos agora! Essa onda t boa de pegar. Olha a! gritou Helen.
      Elas batiam rapidamente os ps  frente da forte onda, que foi crescendo at ergu-las e lan-las  praia, como flechas.
      Helen e Lillian conseguiram boiar o tempo todo. Contudo Cris e Trcia trombaram uma com a outra e rolaram at a praia como um par de tnis dentro de uma secadora. 
Quando recuperaram o flego, riram s gargalhadas pelo que a gua fizera com o cabelo delas. Retorcendo e emaranhando-o, deixara as quatro com "penteados" ridculos, 
cheios de areia.
      - Olha s seu cabelo, Cris! disse Helen, soltando um gritinho estridente. Se pintar de roxo voc fica a punk perfeita!
      Cris riu com elas, passando a mo na "crista de galo" que lhe formara no alto da cabea. Mas logo virou-se e foi brincar mais um pouco nas ondas, enquanto 
os rapazes corriam atrs delas com suas pranchas de body board.
      Algum tempo mais tarde, sem flego e com os maios cheios de areia, saram da gua. Relutante, Cris perguntou as horas.
      - Provavelmente j so umas duas da tarde, respondeu Trcia.
      - Ai! Tenho de ir pra casa! Se puder, volto depois, falou Cris, juntando seus pertences e despedindo-se dos amigos.
      Como gostaria que Ted estivesse ali! Ser que ele leria suas cartas quando chegasse  Flrida? Ser que as responderia? Contudo o que lhe interessava mesmo 
era saber se o que Lillian dissera era verdade. Ser que ele realmente achava que conhec-la fora a melhor coisa que lhe acontecera nessas frias?
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Querido Dirio
3
      
      
      Marta e a me de Cris estavam deitadas nas espreguiadeiras no ptio,  sombra de um enorme guarda-sol amarelo e branco. Ambas olharam para cima quando Cris 
chegou da praia.
      - Bom dia! cumprimentou-as animada.
      - J  "Boa tarde", no ?! disse Marta, com um sorriso de contentamento.
      Magra e sempre na moda, Marta parecia bem mais jovem com aquele short branco e a blusa rosa-choque. Cris nunca percebera antes o quanto as duas irms, sua 
me e sua tia, viviam em mundos diferentes. Vendo uma ao lado da outra, naquele ambiente chique, sua me parecia a mulher mais gorducha, sem graa e deselegante 
do mundo.
      Seu cabelo curto e sem volume, j com alguns fios brancos, era muito liso, enquanto o de Marta era escuro e cheio, moldurando-lhe o rosto com perfeio. Sua 
me no usava um pingo de maquiagem, o que fazia seu rosto parecer mais enrugado e sem graa. A pele lisa de Marta parecia ainda mais bonita com o batom de cor viva 
e a sombra forte nos olhos.
      Agora que estamos na Califrnia, pensou Cris, talvez a tia Marta consiga transformar minha me, de mulher da roa, numa socialite. Cris esticou a toalha sobre 
uma cadeira e sentou-se de frente para a me e a tia.
      Cristina! gritou a me, olhando bem para o seu rosto. Olhe s pra voc! Torrou no sol! Cris levou a mo ao rosto.
      - No est to mal assim.
      - Querida, voc tem de usar protetor solar no rosto sempre, lembra-se? disse Marta, com doura. Aquele que comprei pra voc acabou?
      - Ah, que timo! brincou Cris. Agora tenho duas mes pra ficarem o tempo todo me dizendo o que fazer.
      - Todas as garotas do mundo deviam ter essa sorte, retrucou Marta, com um sorriso confiante. Voc se divertiu com os jovens na praia?
      - Sim, disse Cris, recostando-se na cadeira. Alguns dos meus velhos amigos estavam l, mas nem todos.
      No sabia se a tia havia falado sobre o Ted para sua me, e no tinha certeza se seria bom tocar no assunto. Talvez seus pais ficassem bravos se soubessem 
que ela fora  Disneylndia sozinha com o Ted, e que ele fora dirigindo.
      - Voc precisava ver uma pessoa que Cris conheceu na praia! disse Marta  irm. Um encanto! O tipo de jovem que faz a gente acreditar que existe esperana 
para o futuro.
      Voc  um amor, tia Marta. No sabia que tinha gostado tanto assim do Ted, pensou Cris.
      - O nome dela era Alissa.
      Ah!
      Marta tocou o brao da irm.
      - Moa lindssima. Tenho certeza de que influenciou Cristina com seus modos refinados.
      Toda a irritao de Cris com a tia voltou como uma onda gigantesca, destruindo seu nimo.
      Voc no sabe de nada, tia Marta! Alissa  a pessoa mais problemtica que j conheci! Ted e seus amigos foram os que mais me influenciaram, e no a Alissa!
      - Voc a viu hoje a? perguntou a me.
      - Quem?
      - Alissa, essa garota boazinha de que Marta gostou.
      - No, ela voltou para a casa da av, em Boston.
      - Sabe? exclamou Marta, erguendo-se da espreguiadeira. Acho que o Bob disse que chegou uma carta de Boston para voc. Deixe ver se est na sala de televiso.
      Marta saiu rapidamente, e Cris dirigiu  me um breve sorriso. Talvez eu no queira que a tia Marta transforme voc. Talvez prefira que voc continue sendo 
a mesma me simples de sempre.
      - Norton e Bob foram a San Marcos ver o negcio da companhia de laticnios, disse a me. Espero que d tudo certo.
      - Onde  San Marcos?
      - Se no me engano, o Bob disse que fica a cerca de uma hora e meia daqui.
      - Uma hora e meia?
      - Sim, ao sul, perto de San Diego.
      - Quer dizer que fica a mais de uma hora daqui? Pensei que era pertinho!
      - Cris! exclamou a me, parecendo surpresa. Voc sabia que no iramos morar aqui!
      - Sabia que no iramos ficar na casa do tio Bob e da tia Marta, mas pensei que fssemos morar aqui na praia de Newport.
      A sua me abanou a cabea.
      - s vezes voc parece que vive num mundo de sonhos. S escuta aquilo que quer ouvir. Se esse emprego der certo, o Bob tem um amigo corretor de imveis que 
nos alugar uma casa em Escondido.
      - E onde  esse "Escondido"?
      Cris quase no acreditava no que a me estava lhe dizendo.
      - Perto de San Marcos, claro. A casa  numa parte mais antiga da cidade, e o aluguel  mais acessvel.
      - E em que escola vou estudar?
      A jovem havia imaginado que comearia as aulas na semana seguinte e seria colega de, pelo menos, uma das amigas da praia. Agora a idia de uma escola nova, 
onde no conhecia viv'alma, assustava-a.
      - Quando estivermos acomodados, resolveremos isso.
      No! pensava Cris, sentindo vontade de gritar. No e no! Por que no podemos morar aqui? Por que no me disseram que a companhia de laticnios era em outro 
lugar? Como uma mquina complicada, que de repente pra de funcionar, os pensamentos de Cris congelaram por um momento. Depois voltaram a girar. Talvez o emprego 
do papai no d certo, e tenhamos de voltar para o Wisconsin. Pera a! Mas por que estou pensando isso? Quero morar aqui, no no Wisconsin! Cris esforava-se para 
desligar-se daquelas preocupaes.
      - Eu estava certa! anunciou Marta, balanando uma carta no ar. Aqui est, Cristina. Olha, eu e sua me estvamos planejando sair para fazer umas comprinhas. 
Tenho de ir  Corona Del Mar e, na volta, podemos dar uma passada em algumas lojas. Por que voc no se apronta rapidinho? Preciso passar na lavanderia antes das 
quatro.
      - Sei no...
      Cris escolhia as palavras com cuidado, pois sabia o quanto a tia ficava chateada quando as pessoas no aceitavam seus planos.
      - Se no se importar, me, acho que vou preferir ficar em casa.
      - Por qu? perguntou Marta.
      - Bem, a viagem foi longa e ainda preciso me refazer.
      Nem parecia que era ela que estava falando aquilo. Procurava ansiosamente uma explicao que satisfizesse suas "duas mes". Precisava ficar um pouco sozinha 
para pensar.
      - Isso me parece bastante sensato, minha filha, disse a me, levantando-se. S vou passar um pente no cabelo, Marta, e estarei pronta num instante.
      - Por que no troca de roupa? D tempo.
      A me de Cris olhou para a saia de algodo azul-marinho, um pouco amassada, e a blusa xadrez em vermelho e branco.
      - Estou bem assim, no estou?
      Cris quase no acreditava no que ouvia. Marta a tratara exatamente da mesma maneira durante as frias. Contudo Cris nunca pensou que ela seria capaz de ter 
com a prpria irm aquela atitude mesquinha: "Voc no est suficientemente bem vestida para andar comigo".
      - Faa o que achar melhor, respondeu Marta. Vou pegar minhas coisas e tirar o carro.
      - Divirtam-se! disse Cris.
      Ela sabia como seria a tarde, com a tia controlando tudo. Certamente Marta iria tentar ensinar  irm uma poro de coisas. Contudo sua me provavelmente no 
iria gostar muito daquilo.
      Esticando-se na espreguiadeira, Cris abriu o envelope e retirou a carta de Alissa. Era s de uma pgina, e dizia:
      
      Querida Cris,
      Recebi sua carta hoje e fiquei feliz por ter notcias. Ainda estou namorando o Bret. Ele  um cara maravilhoso. Na verdade, bom demais para mim. Minha av 
gosta muito dele e o convida para vir aqui com frequncia. Acho que se terminasse o namoro, minha av sentiria mais falta dele do que eu!! To brincando, viu?!
      Uma parte de sua carta me deixou intrigada. Voc disse que tinha "entregado seu corao a Jesus", e achava que, se eu fizesse o mesmo, minha vida iria mudar.
      O que no entendo  como se entrega o corao a algum que j morreu. Creio que Jesus era um homem bom, um bom exemplo, como Maom ou Buda. Mas por que cargas 
d'gua a gente faria promessas a um homem que no existe mais? E como isso poderia transformar sua vida?
      No estou desprezando seus sentimentos, Cris. Se voc acredita nisso, tudo bem. Mas para mim no faz sentido. No entendi por que voc quer que eu tome a mesma 
deciso. Talvez no tenha entendido o que voc quis dizer.
      Por favor, me escreva quando tiver um tempinho.
      Tchau,
      Alissa.
      Cris mudou de posio na espreguiadeira, mordiscando a unha do polegar, pensando em como responder a Alissa. Deu um branco total. Sentia-se amortecida. Tinha 
muita coisa acontecendo no momento, e no conseguia raciocinar com clareza.
      Me d um tempo, Alissa, sussurrou ela. Preciso pensar mais sobre isso. Se pelo menos no tivssemos de morar em Escondido... Se pelo menos eu pudesse ficar 
com meus amigos cristos... Se... De repente Cris percebeu o erro que estava cometendo. Puxa! Foi isso que a Lillian quis dizer quando falou sobre a gente ficar 
pensando: ".Se pelo menos...''! Acho que ela estava certa.  melhor parar com  isso, antes que fique maluca!
      Cris s recomps e resolveu ir tomar um banho. A cada degrau da escada que subia, repetia as palavras de Lillian: "Deus est no controle. Deus est no controle". 
Quando chegou em cima, parou e sorriu. Deus, deixar o Senhor assumir o controle da minha vida vai ser um aprendizado e tanto pra mim, no ?! Espero que seja divertido!
      Naquela noite, antes de dormir, Cris escreveu essas coisas em seu dirio. Bob cumprira a promessa e lhe comprara um dirio naquele mesmo dia. Entregara-lhe 
um caderno com capa de couro, quando a famlia voltou de um passeio pela praia.
      - Procure escrever um pouquinho todo dia, est bem? Dissera ele. Escreva seus sentimentos, seus pensamentos, as coisas que esto acontecendo com voc, seus 
sonhos, suas tristezas... No deixe de escrever. Nas prximas semanas, este livrinho poder tornar-se um verdadeiro amigo para voc.
      , pensou Cris. Talvez venha a ser meu nico amigo.
      
      A Festa Da Camisola
      4
      
      Escondido... o nome combina com o lugar, pensou Cris, quando a famlia parou diante da casa que viria a ser o seu "lar doce lar". Esse lugar  to escondido 
que duvido que algum me encontre aqui.
      A casa era pequena, pintada de bege, com telhas vermelhas, aninhada entre uns seis eucaliptos gigantes. O gramado da frente, escuro e ressequido, tinha tufos 
de mato alto e retorcido pelos ventos quentes de setembro. A tela da porta da frente tinha um rasgo bem grande, e havia uns cacos de vaso de planta espalhados na 
varanda da frente.
      A me de Cris olhou aquela cena e pareceu querer chorar.
      - Harold disse que nos encontraria aqui s onze. Parece que chegamos um pouquinho cedo, disse Bob, olhando o relgio.
      - Voc acha que esse gerente da imobiliria estaria disposto a abater um pouco no valor do aluguel, se fizssemos os reparos necessrios na casa? perguntou 
Norton.
      - Acredito que sim. Pode deixar que eu falo com ele, respondeu Bob.
      Um BMW vermelho-vivo buzinou e parou na entrada da garagem, atrs do Mercedes prateado de Bob. A porta do carro se abriu e um homem alto, de terno cinza, desceu.
      -Meu amigo, Bob! disse o homem, cumprimentando o tio de Cris.
      Em seguida deu um rpido e vigoroso aperto de mo em cada um.
      Cris notou uma moa de cabelo loiro comprido e ondulado, sentada no lugar do passageiro no BMW. Estava de costas para o grupo e havia deixado o teto solar 
do carro aberto, de forma que todos ouviam a msica que vinha do rdio.
      -Venham aqui conhecer minha filhinha, disse bem alto o corretor.
      Iodos o seguiram e ele bateu no vidro do carro. A moa magra e de boa aparncia abriu o vidro e abaixou o volume.
      -Brit, falou o pai. Esta  a famlia Miller. Aquele ali  o Davizinho, e esta a  a Cristininha.
      - Cris, corrigiu ela num sussurro.
      Ningum, mas ningum mesmo a chamava de "Cristininha"! Jamais! Quem seria esse palhao? e que filha mais estranha aquela!
      -Ol, disse a menina secamente, quase sem expresso no rosto.
      Cristina respondeu no mesmo tom.
      - Oi!
      - Vocs duas tratem de tornar-se grandes amigas, viu?! disse o homem. Vamos entrar. Estou com as chaves e o contrato de aluguel para vocs assinarem. Esta 
era uma casa de hspedes daquela manso ali em frente. rea muito histrica, essa aqui.
      Todos entraram na casa, deixando Cris ali, sozinha naquele sol quente, sentindo-se meio perdida e humilhada.
      A moa no carro aumentou o volume do rdio e inclinou o banco para trs para que o rosto ficasse na sombra. Tinha um rosto fino, de mas salientes, e olhos 
cinza-escuro. Continuava olhando para Cris inexpressivamente.
      - ... comeou Cris, tentando puxar conversa. Acho que no entendi direito seu nome.
      -  Brittany, disse a moa. E o seu, como  mesmo?
      - Cris.
      Ficaram em silncio por uns instantes. O vento quente agitava a camiseta de Cris, secando um pouco do suor que escorria em suas costas.
      - Aqui sempre faz calor assim? perguntou Cris.
      - No. S quando chega o vento quente de Santa Ana. Normalmente a primeira semana de aula  a mais quente do ano.  uma loucura. No sei por que no fecham 
a escola e deixam todo mundo ficar em casa at o final do ms, quando o tempo melhora.
      - Em que escola voc estuda?
      - Kelley High. Voc tambm vai estudar l. Que ano voc vai fazer?
      - Segundo do segundo grau.
      - Eu tambm, disse Brittany, parecendo um pouco mais interessada em Cris. Ser que teremos aulas juntas?
      - Ainda no me matriculei.
      - V se consegue fazer Biologia com a professora Ana. Fui A.P. nas aulas dela no ano passado. Ela  bem moderninha. Entendeu?
      Na verdade Cris no havia entendido o que ela queria dizer. Nem sabia o significado de A. P Tambm no queria perguntar. S queria que Brittany gostasse dela, 
a aceitasse e fosse sua amiga.
      Aquela noite, Cris escreveu sobre Brittany em seu dirio:
      Acho que encontrei minha primeira amiga aqui. O nome dela  Brittany. Ela lembra um pouco a Alissa. Deixa a gente curiosa e intimidada ao mesmo tempo. Gostaria 
de ser igual a ela, mas quando estou perto dela sinto-me como se no estivesse  sua altura. Acho que  porque ela parece amadurecida e experiente... e no desajeitada 
como eu.
      Mesmo assim, no sei. Eu gostava da Paula como minha melhor amiga porque ramos muito parecidas. Pelo menos, ramos... Acho que agora quero ser mais sofisticada, 
como essa Brittany.
      *****
      
      Cris acordou cedo. O quarto estava super quente. Escancarou a janela e o vento do deserto balanava a cortina branca fininha. O cheiro forte de eucalipto encheu 
o quarto, lembrando a loo aps barba, Aqua Velva, que seu pai costumava usar, em ocasies especiais.
      Vestiu um short branco amarrotado e uma blusa vermelha, sem mangas, e comeou a arrumar o quarto. s oito e meia j havia acabado de tirar tudo das caixas 
e guardado do jeito que queria.
      At que o quarto no era to ruim. Era bem menor que o da antiga casa na fazenda, mas tinha um armrio embutido bem maior. Seria fcil organizar suas roupas 
ali.
      Sobre a penteadeira, ela arrumara todos os seus tesouros. A "Sininho" de vidro da Disneylndia, a caixa de msica de cermica com o bonde que subia e descia 
o morro, um porta-retrato com a foto dela e de Paula na formatura de oitava srie e, numa lata decorativa, os cravos brancos que Ted lhe dera. Agora eles j estavam 
secos e sem perfume.
      Cris ajeitou a colcha de retalhos amarelos na cama, e colocou o ursinho Puff em cima do travesseiro.
      - Pronto, a est, Puff, disse ela alegre. Seu novo lar! Que tal? Sei, continuou Cris sentando na cama e pegando o ursinho. Eu tambm estou bastante tensa. 
Mas vamos superar isso! Voc vai ver s. Deus est no controle de tudo. S precisamos de alguns amigos.
      Dois dias depois, Cris foi  aula pela primeira vez, no colgio Kelley High. Para alvio seu, ela e Brittany estavam na mesma turma de lgebra. Tambm faziam 
Biologia juntas, com a professora Ana. Na hora do almoo, Brittany apresentou Cris a duas outras garotas.
      - Esta  a Cris Miller.  nova aqui. Veio de mudana l do lowa ou algo assim.
      - Wisconsin, sussurrou Cris.
      - Wisconsin, repetiu Brittany. E estas so Jane e Katie "Oncinha".
      - Ah! muito obrigada! disse Katie, com voz de deboche. Parece que agora vou ter esse rtulo pelo resto da vida: Katie, a "Oncinha" do Kelley High.
      Katie tinha aparncia atltica e cabelo acobreado, cortado bem curtinho, lembrando um leque oriental, quando ela se mexia. Qs olhos verdes e brilhantes pareciam 
os de um felino.
      - Ela  a mascote do nosso colgio, explicou Brittany.
      - Vamos l, Katie! D um de seus saltos a! disse Jane, falando sem parar, como se voando pelas palavras.
      - Agora no, Jane. Prefiro deixar para o torneio na sexta -feira, disse Katie.
      As trs brincavam e conversavam. Cris comia seu sanduche de amendocrem e gelia, olhando-as em silncio. Gostou imediatamente de Katie e de Jane.
      Jane tinha cabelo bem preto, encaracolado, e o usava solto, o que lhe dava um ar extico. Seu jeito alegre combinava com sua aparncia descontrada. Cris resolveu 
que faria de tudo para que essas garotas gostassem dela, especialmente a Jane.
      Para sua alegria, ela e Jane estavam na mesma turma de Espanhol. Cris sentou-se logo atrs dela. Todo mundo parecia conhec-la, e Cris se animou com a idia 
de ter uma amiga to popular.
      A semana foi passando e, afinal, tudo estava dando certo. As meninas incluram Cris todos os dias no seu grupinho na hora do almoo. Brittany at elogiou o 
vestido de marca famosa que a tia Marta comprara para ela nas frias passadas.
      - Voc fica to magrinha com ele, disse. Adoro esse estilo!
      Na sexta-feira, ao almoo, Cris se convenceu de que no precisava mais se preocupar em fazer amizades. Jane anunciou que ia dar uma "festa da camisola", e 
convidou-a para ir tambm. Cris sentiu grande satisfao interior ao pensar como tinha sido fcil enturmar-se com aquelas garotas to populares.
      - Todo mundo leva bastante p.h! disse Jane, entusiasmada.
      - Bastante o qu? indagou ela.
      - Ph... Papel higinico! respondeu Brittany.
      - Ah...
      Cris olhou para as outras meninas, tentando entender sobre o que exatamente estavam falando.
      Jane prendia a ateno de todas com suas risadinhas.
      - Vamos "empapelar" a casa dele melhor do que da ltima vez! declarou.
      Todas as garotas comearam ento a comentar sobre um tal de Rick Doyle.
      Tudo bem. Hoje  noite vou acabar descobrindo o que .
      A me de Cris hesitou em permitir que ela fosse dormir na casa de Jane, mas quando soube que Brittany tambm iria, filou mais sossegada. Contudo insistiu em 
falar com a me de Jane no telefone, para ter certeza de que haveria um adulto supervisionando tudo.
      Ento, na hora da festa, foi com Cris at a porta da casa de Jane, queria certificar-se de que tudo estaria bem, antes de permitir que a filha ficasse. Era 
uma situao embaraosa! E pior foi quando ela falou bem alto:
      -Se voc tiver qualquer problema, telefone. Mesmo que seja no meio da noite, est bem?
      Cris acenou que sim e suspirou aliviada, ao ouvir a me de Jane responder:
      Fique tranquila, no vai haver nenhum problema no. 
      No suporto mais ser tratada como uma criancinha! pensou Cris, ao entrar. Espero que as meninas no tenham escutado isso. Quando eu for me, nunca, jamais 
vou tratar meus filhos desse jeito!
      Seus pensamentos foram interrompidos pela risada contagiante de Jane.
      - Quantos voc trouxe? perguntou ela a Cris.
      - Quantos o qu?
      - Rolos de p. h.
      Cris ficou confusa, mas Brittany interrompeu-a.
      - Olh'a, gente! Estou pronta pra ir  casa do Rick! disse da, tirando do saco de dormir dois pacotes grandes de papel higinico.
      - timo! E voc, Cris, quantos trouxe?
      Sem graa, Cris tirou um nico rolo de papel higinico da sacola, e falou:
      - No quero parecer boba, mas o que ns vamos fazer com esse papel higinico todo?
      - Vamos "empapelar"! replicou Jane, com uma risada. Voc nunca "empapelou"?
      - No.
      - A gente s faz isso com pessoas que a gente gosta, explicou Brittany. De preferncia, com caras bem bonitos.
      - Como o Rick Doyle, acrescentou Jane.
      Brittany deve ter percebido a expresso confusa no rosto de Cris, porque continuou explicando.
      -  o seguinte: de madrugada, vamos todas  casa do Rick e, bem quietinhas, enrolamos papel higinico nas rvores, no carro dele e na janela do quarto dele.
      - Mas, por qu?
      - Por que... sei l! A gente se diverte com isso e tenta no ser pega, disse Jane, dando uma risada e imitando o "por qu" da Cr is.
      - Parece divertido, disse Cris, tentando animar-se para acompanhar o pique das outras.
      - Vamos l, meninas, disse Katie. Esto todas aqui. Vamos comear as brincadeiras!
      Todas se sentaram no cho, e Jane deu um pedacinho de papel a cada uma. Pediu ento que escrevessem ali sobre o maior vexame que j haviam passado e sem pr 
o nome, colocassem o papel dobrado dentro da tigela.
      Cris tentava pensar em algo para escrever, enquanto Jane continuava dando risadinhas. Finalmente resolveu falar sobre o dia em que estava aprendendo a pegar 
jacar com Alissa, e uma imensa onda pegou-a de surpresa, jogando-a na praia, coberta de algas, na frente de Ted e de uma turma de surfistas.
      Quando todas haviam colocado os papis na tigela, Katie comeou a tir-los, um por um, e a ler, sem d, para todo o grupo. Todas tentavam adivinhar com quem 
cada incidente ocorrera.
      Jane ria mais alto que todas, principalmente quando chegou a sua vez. Ela ainda estava na stima srie quando, um dia, depois da aula de Educao Fsica, vestiu-se 
depressa e esqueceu de pr a saia. No deu falta dela porque estava de angua. Saiu apressada do vestirio, passou por um grupo de garotos que estavam tendo aula 
de Educao Fsica e entrou na sala de aula. Quando se sentou, o cara da carteira ao lado perguntou:
      "Ei, voc no est esquecendo de nada, no?"
      Da ela teve de correr ao vestirio para pegar a saia.
      Cris ficou vermelhinha quando Katie comeou a ler o dela.
      - Tem de ser da Cris, comentou Brittany. Olhem s como ela est envergonhada s de ouvir a Katie ler!
      -Deve ter sido horrvel, "aterrizar" na praia bem na frente todos aqueles caras! disse Katie.
      -E foi mesmo! concordou Cris. Mas no fim valeu a pena porque foi assim que conheci o Ted.
      -oooo! disseram as garotas em coro. Conta isso a direito! Como  esse Ted?!
      -Primeiro vamos terminar a brincadeira, insistiu uma das meninas.
      Ento Katie pegou outro papelzinho. Todo mundo adivinhou de quem era antes que ela acabasse de ler. Era o dela mesma. Seu maior vexame havia sido no dia do 
teste para ser mascote no ano anterior. Seu short rasgara na parte de trs quando estava se apresentando diante dos juizes. Ela no percebeu e continuou fazendo 
as acrobacias de ginasta, terminando a apresentao com a calcinha cor de rosa bem  mostra.
      - Preciso de um novo "momento de maior vexame", reclamou Katie. Vocs j sabem tudo a meu respeito!
      De todas as histrias, Cris achou a da Brittany a mais embaraosa. Estava havendo uma festa na beira da piscina na casa dela, no ano anterior, e ela resolveu 
dar um mergulho. Quando pulou na gua, a parte superior do biquini se soltou. Ento ela ficou escondida num cantinho, na parte mais funda da piscina, enquanto Jane 
tentava pegar a pea. Contudo as alas se prenderam no filtro, e o pai dela acabou tendo de ir l solt-las.
      - Essa foi a pior! exclamou Jane.
      - E tinha rapazes na festa? perguntou algum.
      - Sim! S uns oito. E dos mais lindos que voc puder imaginar.
      - O Kurt estava l? perguntou Katie.
      - Por favor, nunca mais mencione esse nome na minha frente! exclamou Brittany, em tom dramtico.
      - O Kurt  um crpula, acrescentou Jane.
      - Espere a, disse Katie. Achei que vocs estavam namorando!
      - De jeito nenhum! Terminamos antes do incio das aulas.
      -Tudo bem. Acho que estou meio por fora dos ltimos escndalos amorosos por aqui. Preciso renovar minha assinatura do "Jornal de fofocas do Kelley High".
      Todas riram, e o jogo parecia haver acabado oficialmente. Passaram ento algum tempo comendo e batendo papo. Cris ficou quieta, chupando uma bala de chocolate.
      Ser que essas meninas realmente a aceitaram? Ser que a viam como parte do grupo? Achava que sim, embora os assuntos delas fossem bem mais pesados do que 
as coisas que ela e Paula costumavam conversar. Essas garotas vestiam-se como se tivessem vinte anos, em vez de quinze, e usavam tanta maquiagem! Os pais de Cris 
tinham deixado que ela usasse um pouco da maquiagem que a tia Marta lhe comprara. Mas a regra deles era "Se der para notar que voc est maquiada, ento est exagerando". 
At o momento, ainda no tivera problemas.
      - Venham aqui, meninas, chamou Katie da cozinha. Jane est ligando para o Rick.
      - Seu relgio est andando? perguntou, tentando disfarar a voz ao telefone. Ento  melhor voc ir atrs dele e peg-lo. Desligou e caiu na risada.
      - Ele est em casa! Perguntou se eu estava drogada!
      - Jane, voc  louca! No acredito que tenha feito isso!
      - Ah, qual  Katie! Aposto que voc queria estar no meu lugar!
      Quem  esse Rick, e por que todas elas esto to loucas por ele?
      Pouco depois da meia-noite, Jane chamou a galera para sair. Todas entraram no trailer dos pais de Jane, e Cris acompanhou-as.
      - Quase no estou acreditando que sua me tenha topado levar a gente! sussurrou Cris para a amiga.
      - Ela adora essas coisas. Quando era jovem, costumava "aprontar" muito mais. Ela acha isso o mximo.
      Passaram devagarinho por uma manso em estilo espanhol, de telhado vermelho. Na frente havia um grande jardim, com arbustos dos lados e duas rvores bem altas 
na entrada.
      -  esta, sussurrou Jane. Estacione um pouco mais pra baixo, me.
      Cris seguiu as outras garotas, que desciam do carro em silncio. Pisando bem de leve, correram at o jardim da casa do Rick, com os rolos de papel escondidos 
sob as blusas. Ela ficou observando enquanto as outras desenrolavam o papel higinico e o espalhavam pelos galhos dos arbustos. Atiraram o papel sobre uma rvore 
grande e algum pegou a ponta dele do outro lado.
      Devagar, com muito cuidado, Cris foi desenrolando seu p. h. colocando-o sobre os arbustos laterais. Em meio  escurido, viu Jane indo p ante p at a frente 
da casa e, audaciosamente, prender nela o papel, formando um ziguezague. Outra garota fez um lao muito mal feito sobre a caixa do correio. E entre cochichos e sussurros, 
o grupo completou a tarefa. Ento Katie e Jane foram at a janela do quarto do Rick e tentaram tranar papel higinico nela. No estava dando certo e, cochichando, 
elas discutiam o que cada uma estava fazendo de errado.
      De repente uma luz se acendeu. Katie gritou. Jane tambm. Ento saram correndo. O susto das duas provocou uma reao em cadeia no grupo que se encontrava 
no jardim. Todas se puseram a correr. Em pnico, Cris escondeu atrs de uns arbustos.
      Uni instante depois, as luzes da varanda se acenderam, e um homem alto, de pijama, escancarou a porta, atravessou aquela teia de aranha de papel higinico 
e avanou noite a dentro, com um basto de beisebol na mo. Naquele momento, para horror de Cris, ela viu o trailer partindo em disparada, com todas as meninas gritando 
l dentro.
      Elas a haviam abandonado! Ningum lhe dissera para correr em vez de se esconder. O que iria fazer agora?
      - Rick! gritou o homem, da porta da frente. Venha aqui ver o que seu f-clube deixou para voc.
      Um rapaz alto, de ombros largos e cabelo encaracolado e espesso, apareceu na porta, vestindo calo e camiseta Nike.
      - De novo! reclamou ele.
      - Elas esto ficando muito descaradas, Rick. Sua me me acordou pensando ter ouvido um ladro ao lado da janela do nosso quarto.
      - Pai, posso deixar pra tirar isso amanh de manh?
      - No. Vai tirar agora, disse o homem.
      Em seguida os dois entraram e desapareceram.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      "Era Pra Correr?"
      5
      
      O que  que eu fao? Que  que eu fao? sussurrava Cris, escondida atrs do arbusto.
       Ser que deveria correr? Mas para onde iria? Nem sabia onde estava! Deveria procurar um telefone? Mas no sabia o nmero de Jane, e preferia morrer do que 
ligar para a me e pedir que viesse busc-la!
      Levantou-se um pouco para ver se o barulho que ouvia era o trailer voltando para busc-la. No era. Era a porta automtica da garagem se abrindo. Ele estava 
saindo!
      Cris escondeu-se novamente. Que  que eu fao? Que  que eu fao?
      Rick comeou a arrancar as longas tiras de papel da rvore, colocando-as num saco de lixo. Depois de dar a volta na rvore toda retirando os papis, dirigiu-se 
para os arbustos.
      Ele est vindo pra c! Que  que eu fao?
      Cris batia o queixo e tremia incontrolavelmente, no de frio, mas de pavor. Agora Rick estava bem  sua frente, puxando depressa o papel dos arbustos. No 
aguentava mais o suspense. Quase sem pensar, ela deixou que a adrenalina a dominasse e pulou na frente dele de uma vez.
      - Ol, disse ela, com uma vozinha aguda.
      - Aaah! Gritou Rick, deixando cair o saco de lixo e tombando para trs.
      Ento, recompondo-se depressa, tentou ver o rosto de Cris e indagou:
      - Ei! Quem  voc? O que est fazendo a?
      Cris sentia-se paralisada pela estranheza da situao. 
      - Tchau! gritou ela de repente, saindo em disparada. Correu o mais depressa possvel, sem a mnima idia de onde estava ou para onde ia. O pior de tudo foi 
que Rick saiu correndo atrs dela.
      - Espere! Pare! Volte! gritava ele.
      Contudo Cris continuou correndo pela rua escura. Um carro virou a esquina e veio em sua direo. Ela chegou para perto da calada, sem parar de correr.
      - Pare, por favor! gritava Rick. Entretanto sua voz foi abafada pela buzina persistente do carro que se aproximava. Os faris comearam a piscar, e Cris percebeu 
que era o trailer!
      O carro diminuiu a velocidade, e Katie abriu rapidamente a porta da frente.
      - Entre aqui!
      Com um movimento meio desajeitado, Cris se jogou dentro do carro. A me de Jane acelerou. As meninas, no banco de trs, encostavam o rosto nos vidros do carro, 
gritando e assoviando para o Rick.
      Jane dava risadas estridentes no banco da frente.
      - O que aconteceu, Cris? Por que ele estava correndo atrs de voc?
      - Voc est bem? perguntou a me de Jane.
      Sem flego, Cris abaixou o vidro para tomar um pouco de ar. O suor pingava de sua testa, escorrendo pelo pescoo. Nunca se sentira to descontrolada antes. 
S conseguia rir. Uma risada nervosa, aliviada, que vinha l do fundo.
      - Sim, disse ofegante. Estou bem.
      As garotas que estavam na parte de trs do trailer aproximaram-se do banco da frente, fazendo mil perguntas.
      - O que aconteceu?
      - Por que o Rick estava correndo atrs de voc?
      - O que voc fez?
      - No d pra acreditar! disse Jane, quase gritando. O que aconteceu, Cris? Ns s percebemos que voc no tinha vindo quando j estvamos quase chegando em 
casa. A gente vinha conversando e rindo, at que a Brittany perguntou: "Cad a Cris?" A ns entramos em pnico e resolvemos voltar, mas, antes mesmo de chegarmos 
ao quarteiro do Rick...
      Katie terminou a frase:
      - ... l estava voc, correndo no meio da rua  uma hora da manh, com o Rick Doyle em disparada atrs de voc! Cris respirou fundo mais uma vez e comeou 
a explicar:
      - Eu no sabia que era pra correr. Quando a luz se acendeu, eu me escondi nos arbustos. A vocs foram embora e fiquei sem poder sair de l, porque o Rick 
e o pai dele estavam bem ali.
      - No brinca! E o que aconteceu depois?
      - Eu ia tentar sair de fininho, mas o Rick comeou a tirar os papis das rvores. Quando ele chegou ao arbusto onde eu estava escondida, fiquei apavorada.
      - E da, o que voc fez?
      - Eu, eu... Nem acredito que tenha feito isso! Foi to bobo! disse Cris, hesitando um pouco.
      - O qu? gritaram todas.
      - Eu me levantei de repente, e disse: "Ol". Ento todas as garotas dispararam a rir.
      - Ele levou o maior susto, continuou Cris. Da fiquei com tanto medo que comecei a correr. Ele veio correndo atrs de mim, e foi ento que vocs apareceram.
      - Ele sabia quem voc era?
      - No. Estava escuro demais. Alm disso, ele nunca me viu. Enquanto vinha correndo atrs de mim, gritava: "Pare! Quem  voc?"
      - Essa histria no lhe parece a da Cinderela? brincou Katie. E mais uma vez elas caram na risada.
      - Posso imagin-lo, segunda-feira na escola, gracejou Katie, experimentando o tubo de papelo do papel higinico no p de cada donzela do reino!
      Cris sentia o rosto queimar enquanto elas debochavam de sua situao. No estava acostumada a ser o centro das atenes, mas estava gostando muito. Elas a 
estavam tratando como fosse uma espcie de herona. Sua fuga na madrugada foi o pice da festa da camisola. Katie disse que era uma histria para ser passada de 
gerao em gerao.
      Por volta das trs da manh, a conversa j havia diminudo. Katie e Jane estavam "roubando" as peas ntimas da sacola de uma das meninas, e rindo com a idia 
de colocar o suti no congelador.
      Sem acender a luz, no escuro, Cris foi ao banheiro e abriu a porta. Havia pouca luminosidade, mas ela pde ver Brittany ajoelhada ao lado do vaso sanitrio, 
vomitando. 
      - Brittany! cochichou. Voc est bem? 
      - Sim. Tudo bem.
      A garota levantou-se e apertou o boto da descarga, mas o cheiro horrvel do vomito permanecia no ar.
      Quer que eu veja se a Jane tem algum anticido ou anti-espasmdico? perguntou Cris, tentando prender a respirao. Sempre que via algum vomitando ou sentia 
aquele cheiro, seu estmago embrulhava.
      - No! No! sussurrou Brittany, meio tensa. Estou tima.
      - Vou usar o outro banheiro, disse Cris, indo ento para a cozinha, onde encontrou Jane e Katie ao lado do freezer.
      - Acho que a Brittany precisa de um 7Up ou tnica. Estava vomitando no banheiro.
      - T vendo? No te falei? cochichou Katie para Jane. Ela tem anorexia.
      - Quem tem anorexia no come nada, Katie. E ela come o tempo todo! Voc no viu o tanto de Brownies que ela comeu hoje?
      - Ento ela tem aquele outro negcio, disse Katie. "Boemia", ou coisa parecida.  quando a pessoa come  vontade e depois provoca o vomito.
      -  bulimia, Katie, e a gente no pode provar isso.
      - , mas eu acho muito estranho... Ela emagreceu uns dez quilos nessas frias.
      - Quando ela e o Kurt comearam a namorar, retrucou Jane, ele disse que gostava de garotas bem magrinhas. Ento ela deu um jeito de emagrecer um pouco. O que 
h de to estranho nisso? Agora que eles terminaram, ela provavelmente vai recuperar o peso.
      Cris sentia-se totalmente por fora da conversa. As frases de Katie e Jane quase se sobrepunham, porque ambas respondiam uma  outra muito rapidamente.
      - Bem, achei que deveria dizer a vocs, caso ela precise de alguma coisa mais tarde, explicou Cris.
      - Tudo bem, obrigada, respondeu Jane.
      Cris foi rapidamente ao outro banheiro, e em seguida voltou para o saco de dormir. Brittany tinha colocado o seu perto do de Cris e j havia-se deitado, mas 
ainda estava acordada.
      Cris deitou-se e perguntou  nova amiga:
      - Voc est bem?
      - Claro. Estou tima. Voc e o Ted ainda esto namorando?
      - Na verdade ns nunca namoramos. S passamos um bom tempo juntos nas ltimas frias e pudemos nos conhecer muito bem.
      - Vocs eram... sabe, bem ntimos?
      - Sim, respondeu Cris com um suspiro.
      - At onde vocs se envolveram?
      - O que voc quer dizer com isso?
      - At onde vocs foram na intimidade?
      - Bem, ele me deu um beijo de despedida no dia em que fui embora, e me deu um buqu de cravos, disse Cris, com orgulho.
      - S isso?! exclamou Brittany. Um beijo? Pensei que voc tivesse dito que eram bastante ntimos! Brittany afofou o travesseiro e virou-se de bruos.
      - E ramos mesmo. Pelo menos eu me sentia assim, s vezes.
      Cris pensou no seu relacionamento tipo montanha russa.
      - Acho que me envolvi tanto com o Ted porque foi ele quem mais me influenciou para que eu me tornasse crist.
      - Voc  crist? perguntou Katie, arrastando o saco de dormir para mais perto das duas e entrando na conversa.
      - Sim. Voc tambm ?
      - Sou, respondeu Katie. E a Jane tambm.
      - Jane, chamou Katie baixinho. Ainda est acordada?
      - Estou, respondeu Jane, sentando-se. O que houve? A Cris acaba de me dizer que  crist! No  timo? 
      - Oh, que bom! replicou Jane, deitando-se novamente. 
      - Tempos atrs fui a um acampamento com Jane e a turma jovem da igreja dela, explicou Katie toda entusiasmada, virando-se para Cris. Foi no lago Hume. Um lugar 
maravilhoso! Voc precisa ir conosco l nas prximas frias. Simplesmente adorei! Numa das noites, o preletor falou sobre como Deus nos ama e quer que faamos parte 
da sua famlia. Ento fui conversar com a conselheira. Disse a ela minha vida estava uma confuso, e que jamais conseguiria ser boa o bastante para tornar-me crist. 
A ela me pisse que essa transformao no tem nada a ver com o que a gente faz.  um presente que Deus est-nos oferecendo, que podemos aceitar ou no.
      Cris ficou contente com o entusiasmo de Katie.
      Naquela noite, convidei o Senhor pra entrar no meu corao e tornar-me uma nova pessoa. Ele entrou! Parece que comecei a vida de novo.  maravilhoso ser crist!
      - ,  bem legal, concordou Cris. Mas no sei se a minha vida mudou tanto assim.
      - A minha mudou. Ela era uma confuso s... E ainda , ou melhor, minha famlia  toda "embananada". Mas no sinto mais aquela angstia interior. Sinto-me 
parte da famlia de Deus. Ele  como um pai de verdade pra mim. Quando convidei Cristo pra entrar em minha vida e consertar tudo, senti uma alegria imensa. No sei 
se poderia continuar vivendo se Deus no estivesse comigo.
      - Puxa! Queria ter essa intimidade com Deus, disse Cris baixinho. Eu sei que ele est na minha vida, que tem interesse por mim e tudo mais, mas ainda no o 
sinto assim to prximo. T me entendendo?
      - No sei... disse Katie, pensativa, mas logo depois acrescentou: Sabe, uns dois domingos atrs o pastor disse que se quisermos crescer como cristos, temos 
de deixar o Senhor atuar em todas as reas da nossa vida, sem restries. Caso contrrio, seria como convidar algum pra entrar em nossa casa e deix-lo de p num 
cantinho, o tempo todo. Se no o convidarmos pra sentar ou almoar com a gente, se no o tratarmos como um amigo, nunca o conheceremos de fato.
      Uuumm, pensou Cris. Ser que estou deixando Jesus de p num cantinho da minha vida? Ou tenho dado a ele liberdade pra entrar em todas as reas? Tudo est indo 
to bem no momento! Acho que vou cham-lo se precisar.
      - Quer ir conosco  igreja? perguntou Katie. Jane me d carona todo domingo. Acho que os pais dela no se importariam de levar voc tambm.
      - Isso seria timo.
      Cris notou que Brittany estava quieta demais, e se perguntou se ela no estaria se sentindo "por fora" da conversa. Lembrou-se de como se sentia quando os 
amigos da praia comeavam a falar sobre "o Senhor", e ela no entendia nada.
      - Brittany, voc quer ir  igreja conosco? A garota no respondeu. J estava dormindo.
      - Nas frias passadas a Jane convidou-a para ir conosco ao lago Hume, mas ela no quis porque o Kurt no ia. Talvez este ano ela v, j que eles no esto 
mais namorando.
      Aos poucos a conversa foi diminuindo, e Cris bocejou, esticando-se dentro do saco de dormir. Minutos depois estava dormindo.
      Na manh seguinte, por volta das nove e meia, a me de Jane serviu laranjada e donuts* para as meninas, mas ningum estava com muita fome. Elas esbarravam 
umas nas outras enrolando os sacos de dormir e fazendo fila para o banheiro.
      * Rosquinha frita, de massa semelhante  do sonho. (N. E.)
      Cris s queria ir para casa dormir. Contudo, assim que chegou, deram-lhe um ancinho para ajudar a limpar o quintal. Toda a famlia trabalhou o dia inteiro, 
mas no conseguiram terminar. Tiveram de continuar a limpeza no domingo.
      Segunda-feira na escola as meninas ainda comentavam sobre a festa, e cumprimentavam Cris como se ela tivesse sido a estrela da noite. Brittany at convidou-a 
para ir  sua casa aps as aulas. Cris sentia-se animada ao perceber que as garotas a aceitavam e recebiam no seu grupo.
      Na hora do almoo, telefonou para a me, perguntando se poderia ir  casa de Brittany. Para sua surpresa, ela respondeu:
      - Creio que sim. Mas veja se a me dela pode trazer voc em casa depois.
      Brittany morava numa imensa casa ultramoderna, com piscina e vista para um lago.
      - Este lugar  lindo, disse Cris, recostando-se na cadeira almofadada do terrao. Que lago  aquele?
      -  o lago Hodges.  meio sem graa. No d pra esquiar nem mais nada. S pescar.
      Brittany puxou o cabelo para trs, enrolando-o com as mos prendendo-o no alto da cabea. Bebeu mais um gole de seu refrigerante diet, e disse:
      -  Est to quente hoje!
      - Sua me est no trabalho? perguntou Cris. 
      - Sei l! respondeu Brittany, asperamente.
      -  O que voc quer dizer com isso?
      - Minha me saiu de casa faz uns seis meses. A ltima notcia que eu e meu pai tivemos dela era de que estava morando fm Paris.
      - Em Paris? Mas por qu?
      - Ela simplesmente pirou. Queria encontrar sua identidade prpria ou coisa parecida. Sei l. Ela e meu pai no se davam bem havia anos... Mas eu vivo pensando 
que um dia ela ainda vai aparecer.
      Brittany endireitou-se na cadeira e continuou.
      - Quer ouvir uma coisa muito louca? Meu sonho  voltar da escola um dia e encontrar minha me preparando uma sobremesa novamente, papai na sala lendo o jornal 
e meu irmo, em casa com sua faculdade concluda. A ns jantaramos juntos, como uma famlia feliz. Ser que isso s acontece em filmes romnticos?
      Cris abanou a cabea. Estava com muita pena da amiga. Tinha pensado que sua famlia era problemtica. Durante o fim de semana, ela e o irmo haviam discutido 
muito. Seu pai gritara com eles o tempo todo em que estiveram arrumando o quintal (se bem que eles mereceram mesmo umas broncas), e sua me estivera meio area, 
como s vezes costumava ficar. Contudo, sua famlia era uma maravilha, comparada  de Brittany.
      Acabou tendo de telefonar para a me, pedindo-lhe que viesse busc-la, o que no a deixou muito satisfeita. Quando sua me soube que Brittany costumava ficar 
sozinha depois que saa da escola, insistiu para que passasse a vir com Cris para sua casa.
      Parecia que tudo estava correndo muito bem. Naquela semana, Brittany foi para a casa de Cris todos os dias depois das aulas, ajudando-a muito em lgebra. Cris 
detestava Matemtica, mas quando Brittany explicava, conseguia entender tudo.
      As duas estavam fazendo o dever de casa  mesa da cozinha, e a me de Cris saiu com o filho para pegar o marido no servio. Num dado momento, Brittany levantou-se 
para pegar um copo d'gua e derrubou um daqueles ims de enfeite da geladeira. Pegou do cho e comentou:
      - Minha me tinha um desses na geladeira. Alis, tinha vrios. Um era uma plaquetinha que dizia: "Na boca, uma gostosura; nos quadris, eterna gordura!"
      Cris riu.
      - Um dia, continuou Brittany, meu pai deu a ela um im no formato de uma ovelhinha, com os dizeres: "Voc no  gorda;  s fofinha".
      - Que gracinha! disse Cris.
      - Eu tambm achei, mas minha me ficou furiosa e quebrou o enfeite em mil pedaos.
      - E ela era assim "fofinha"? perguntou Cris, meio hesitante.
      - No. Nem um pouco. Sempre foi magrrima. Vivia fazendo regime e estava sempre magra, comentou Brittany, e parou um instante. Mas ela contava com uma ajudazinha 
extra, continuou.
      - Como assim?
      Embora elas estivessem sozinhas em casa, a moa falou em voz baixa, quase sussurrando:
      - Ela tomava uns comprimidos pra emagrecer que o mdico receitou.
      - Ah, disse Cris, no muito impressionada.
      - Ela deixou um vidro quando foi embora.
      Cris no estava entendendo por que Brittany a olhava to fixamente, nem por que agia como se os comprimidos para emagrecer fossem um grande segredo. Olhou 
para a amiga como que dizendo: "E da?"
      - Voc consegue guardar um segredo? indagou Brittany.
      - Sim.
      - No conta pra ningum, mas levei o vidro  farmcia, e me deram mais comprimidos, sem perguntar quem eu era sem pedir pra assinar nada.
      - E ento?
      - Estou tomando esses remdios h uns dois meses, e j emagreci mais de dez quilos.
      - Acho que voc no deve emagrecer mais.
      - E no vou, disse Brittany, meio na defensiva. S estou comentando isso para o caso de voc querer emagrecer um pouquinho. Eu posso lhe dar uns comprimidos. 
No fazem mal nenhum.
      Cris ficou parada, absorvendo tudo o que a outra dizia. Sempre ficara curiosa sobre aquelas propagandas na televiso e em algumas revistas, que diziam que 
a gente pode emagrecer dormindo. Queria perder umas gordurinhas na barriga e nas coxas, mas nunca pensara seriamente em tomar remdios para isso. Contudo essa idia 
agora fazia seu corao disparar.
      -   Sssei l, gaguejou.
      - Se voc no gosta de se sentir hiperativa, pode tomar outra coisa. O problema dos comprimidos  que do a sensao de que estamos cheios de energia. Uma 
hora de sono por noite j  suficiente, mas quando o efeito passa a gente apaga mesmo. Ultimamente tenho tomado laxante.  timo. Me sinto saudvel porque ele limpa 
o organismo, especialmente depois que comi muita coisa que no presta.
      - Voc toma laxante?
      - Por qu? retrucou Brittany, virando-se e olhando-a com ar inocente.
      - Parece horrvel!
      - O que tomo  fraquinho, mastigvel. Existe at com sabor chocolate. Olha s.
      Brittany abriu a bolsa e tirou uma pequena caixa de comprimido laxante, de sabor chocolate, e um vidro de comprimidos moderadores de apetite.
      - Quer ficar com alguns desses laxantes? Se tiver vontade de emagrecer um pouquinho, voc toma. E se quiser experimentar os moderadores de apetite, eu lhe 
dou o que tiver no vidro.
      Entregou-lhe o vidro de remdio controlado e a caixa de laxantes.
      - S tem alguns comprimidos aqui, mas tenho outro vidro cheio, se voc quiser mais.
      - Sei no. Acho que no devo.
      Brittany olhou-a com uma expresso maternal.
      - No faz mal no, Cris! Isso no  como tomar droga. E o melhor disso tudo  que, desde que perdi alguns quilos, os rapazes tm-me dado mais ateno do que 
nunca. A propsito, isso me fez lembrar uma coisa: voc viu a Jane hoje depois do almoo?
      - No, por qu?
      - Ela me disse na aula de Ingls que o Rick Doyle descobriu que a festa da camisola na sexta-feira passada foi na casa dela. Ele chegou pra ela no corredor 
e perguntou por voc!
      - Est brincando! exclamou empolgada e nervosa, simplesmente de ouvir o nome. O que foi que ele disse?
      - Que estava querendo descobrir quem era a garota que fugiu dele.
      - E a Jane, o que respondeu?
      - Ela ficou provocando o coitado. No falou o seu nome. Disse que ele teria de descobrir por si mesmo, e depois perguntou: "Qual  o problema, Rick? Voc est 
to acostumado a ver as meninas correndo atrs de voc que no sabe o que fazer quando uma corre de voc?"
      - Oh, no! reclamou Cris, abaixando a cabea para o livro de lgebra. Estou-me sentindo uma boba! No quero nunca, nunca na minha vida encontrar com ele cara 
a cara.
      - Ah, o que  isso, Cris?! Voc est com uma porta aberta pra conquistar o rapaz mais cobiado do colgio! E olha, se posso ser sincera, se voc perder uns 
trs ou quatro quilos, o cara no conseguir tirar os olhos de voc!
      - Brittany! disse Cris, com um choramingo longo e exagerado. Ele no est interessado em mim, viu? A outra fez que no ouviu e voltou para o livro de lgebra, 
cantarolando baixinho.
      A cabea de Cris ia a mil por hora. Ser que esse Rick estava mesmo interessado nela? E se eu perdesse uns quilinhos? Ou comeasse a  usar mais maquiagem, 
como a Brittany e as outras?
      
      
      
      
      
      
      Simplesmente "Diga No"
      6
      Cris comia devagar. Mastigava vinte vezes cada garfada. Lera numa revista, na casa da Brittany, que contar as mastigadas ajudava a emagrecer. David tagarelava 
sobre o dia na escola, contando que alguns meninos de sua turma tinham sido pegos colando. O pai de Cris aparentava estar mais cansado que o normal, mas pelo menos 
no estava de mau humor. A me parecia preocupada com alguma coisa. Assim que David pediu licena e saiu da mesa, plantando-se na frente da televiso, ela ofereceu 
ao marido uma xcara de caf.
      Ah! pensou Cris. Sabia que voc queria conversar alguma coisa com o papai.
      Sua me sempre vinha com uma xcara de caf para amolecer o marido quando queria fazer-lhe algum pedido. Cris continuava mastigando sua comida lentamente. 
Sua me no parecia incomodar-se com sua presena. Talvez at desse uma fora ao que ela queria dizer.
      - Norton, estive pensando.
      - Umm-huum, respondeu ele, tomando um golinho de caf.
      - Acho que seria muito bom se eu arrumasse um emprego de meio perodo. S enquanto os meninos estiverem na escola, claro. Talvez pudesse fazer algum trabalho 
de secretria ou trabalhar numa lanchonete.
      - Mulher minha no vai usar toquinha de garonete, no! 
      - Tudo bem. Pode ser alguma outra ocupao, mas preciso arumar um servio. Ontem telefonei para o dono desta casa para perguntar se poderamos fazer um jardim, 
agora que limpamos o quintal todo, e ele disse no.
      - Por qu?
      - Sei l. Acho que ele estava com muito problema. O telefone do escritrio tocou umas quinze vezes, e foi ele que acabou atendendo.
      - A est a soluo, disse o pai de Cris.
      A me olhou para Cris, que por sua vez virou-se para o pai. Dezenove, vinte, contou, engoliu e olhou novamente para a me, que perguntou:
      - O qu? Que soluo?
      O pai tomou mais um gole de caf.
      -  bvio que o homem est precisando de ajuda no escritrio; no h ningum para atender o telefone... V procur-lo amanh. Oferea-se para trabalhar para 
ele atendendo o telefone. Como  mesmo o nome dele? Harold?
      - O carto dele est aqui, disse ela, remexendo numa cestinha ao lado do telefone. Aqui: Harold Taylor, Propriedades Taylor. Ser que ele est mesmo precisando 
de ajuda no escritrio? O que voc acha, Norton?
      - Eu j lhe disse.  a soluo para o que voc precisa.
      Cris achou graa do jeito abrupto do pai. Espero que o Sr. Taylor a. contrate. Seria timo!
      Quando estava na cama, j quase dormindo, Cris lembrou-se dos laxantes e comprimidos que Brittany lhe dera. Ela havia-lhe dito para tomar um ou dois antes 
de dormir.
      Estavam na bolsa, que deixara na sala. E com certeza seus pais estavam sentados no sof, assistindo  televiso. No iriam dormir antes das dez.
      Cris virava-se de um lado para o outro. A voz de Brittany ecoava: "Se voc perder  uns trs ou quatro quilos, o cara no conseguir tirar os olhos de voc".
      Talvez se eu tomar s um... Que mal pode fazer?
      Ento lembrou-se das frias passadas, quando recusara a maconha que lhe ofereceram. Isso agora era diferente, mas, mesmo assim, nunca se arrependera de ter 
falado "no" aquela vez. Teria se arrependido se tivesse dado uma s tragada. No. No precisava de comprimidos de dieta, nem de laxantes. Amanh os jogaria fora.
      Pegou o ursinho Puff e sussurrou ao seu ouvido:
      - E se o Rick Doyle estiver mesmo interessado em mim, trs quilos a mais ou a menos no vo fazer diferena!
      Na manh seguinte, antes da primeira aula, Brittany encontrou Cris perto do escaninho.
      - E ento, como est passando? perguntou, com o olhar cheio de curiosidade.
      - Bem, respondeu Cris sorridente.
      - Quantos voc tomou? perguntou a amiga.
      - Ah! exclamou Cris, entendendo afinal a pergunta dela. Os comprimidos! Eu no tomei. No quero. Pode ficar com eles.
      Ps a mo na bolsa e pegou o vidro de remdio para devolver. Brittany ficou na frente dela e agarrou seu punho.
      - Aqui no! disse entre dentes, olhando a turma de estudantes no corredor. Voc me entrega mais tarde, t bem?
      Cris s pde conversar com Brittany depois da aula, mas ela estava to animada, contando-lhe as ltimas fofocas sobre os casais da escola, que no pediu os 
comprimidos.
      - Ficou sabendo que a Jane agora est gostando do Greg? Um terceiranista! D pra acreditar? E adivinhe quem estava esperando por mim depois da aula? O Kurt! 
Ele disse que esteve pensando em mim! Me abraou e falou: "J vi que voc perdeu aquelas gordurinhas". Ento respondi: "Ah ? E voc notou?" Da ele me convidou 
pra sair na prxima sexta-feira, e eu disse: "S uma tonta iria querer sair com voc, Kurt, e eu no sou nenhuma boba".
      - Voc no acha que foi meio dura com ele? perguntou Cris.
      - Depois de tudo que ele fez comigo?! Est brincando! Eu nunca mais sairia com ele. No o suporto! Pra mim, j que acabou, acabou mesmo!
      - E voc no consegue mais ser amiga dele?
      Pra qu, Cris? Ele me usou.  assim que a maioria dos garotos so. Eles usam a gente, depois largam. No d pra focar uma amizade depois disso.
      - Nem todo rapaz  assim, retrucou Cris.
      - Ah ? E esse seu Ted? Ele escreveu pra voc, como prometeu?
      - Bem, no. Ainda no.
      Cris sentiu um aperto na garganta. Toda vez que pensava em Ted vinha-lhe essa sensao. Talvez a Brittany estivesse certa, talvez ele nunca mais escrevesse 
para ela.
      - Os homens vivem fazendo promessas que nunca cumprem, Cris. Voc tem de tirar esse Ted da cabea e comear a se concentrar no Rick. Ouvi dizer que ele ainda 
est tentando descobrir quem voc .
      -  mesmo? Ele mencionou que quase trombei com ele hoje de manh no corredor?
      - No?! Como foi isso?
      Cris comeou ento a contar sobre o incidente. Ela praticamente trombara com o Rick no corredor, e ele pareceu reconhec-Ia, mas no disse nada. Ento ela 
continuou andando, sem olhar para trs.
      - Mas isso  bom demais! disse Brittany radiante. Voc j fisgou o cara! Imagine, quando vocs forem apresentados, voc estar to magra que ele no conseguir 
resistir.
      - Esquea, Brittany. O Rick jamais se interessaria por mim. Ah, acabo de me lembrar: minha me est pensando em arranjar um emprego de meio perodo. Voc sabe 
se seu pai est precisando de algum no escritrio imobilirio?
      - No sei, mas vou conversar com ele.  provvel que sim.
      Aquela noite, aps o jantar, o pai de Brittany telefonou e pediu que a me de Cris fosse fazer uma entrevista para recepcionista no dia seguinte. Ela ficou 
to esquisita ao desligar o telefone! Parecia contente, mas, ao mesmo tempo, irritada porque a Cris havia precipitado as coisas atravs da Brittany.
      Uns vinte minutos mais tarde, o telefone tocou de novo. Eram Bob e Marta. A me de Cris conversou empolgada sobre a entrevista, cheia de confiana e animao.
      - Cris, chamou ela. Seu tio quer falar com voc ao telefone.
      - Ol, "Olhos Brilhantes". Como esto as coisas a?
      - timas. E vocs, como esto?
      - Bem. Estamos muito bem. Escute aqui, estou com uma carta que chegou para voc.
      -  mesmo? De quem?
      - No sei. No tem remetente.
      - Vai ver que  da Alissa, disse Cris, sentindo-se culpada porque ainda no respondera  amiga. Alissa havia-lhe perguntado por que Jesus era diferente de 
Buda ou Maom, e ela no sabia o que responder. Estivera ocupada demais com as novas amizades e no pensara muito no assunto.
      - Pode ser, disse Bob devagar. Vou chamar o "pombo correio" e mando entregar-lhe amanh. No desligue. Sua tia quer conversar com voc.
      - Cristina, querida, acabo de ter uma idia. Eu e Bob vamos a Palm Springs no prximo fim-de-semana. Que tal voc e David irem conosco?
      - Srio?
      Cris tentou pensar depressa. Gostaria de ir a Palm Springs, mas no com o David! Ento abaixou a voz e virou para a parede para que os outros no escutassem 
o que estava dizendo.
      - Tia, sua idia  muito legal, mas talvez no seja to divertido se tiver de cuidar de ns dois.
      -  claro! Que tolice a minha! Voc provavelmente gostaria de vir com suas amigas. Como pode se divertir com um irmozinho a tiracolo?! Vamos fazer o seguinte: 
voc leva algumas de suas amigas nesse passeio e, numa outra oportunidade, ns levaremos o David e alguns dos amigos dele. Agora, deixe-me falar com sua me para 
acertar os detalhes. Voc ter de perder a aula da sexta-feira, porque o torneio de golfe do Bob comea de manh. Ns pegaremos voc e suas amigas na quinta-feira, 
logo aps as aulas. Pra voc est bem assim, querida?
      - Est timo, tia Marta. Espero que meus pais me deixem ir.
      - Claro que vo deixar! Agora, chame sua me.
      - Est bem. Ela est aqui.
      Cris dirigiu-se  pia e comeou a enxugar a loua do jantar. Ouviu a me dizendo:
      -  mesmo, Marta?! Mas voc no precisa fazer isso... 
      - Ela ficou em silncio um instante, e chamou o marido ao fone. O pai de Cris ouviu o que Marta tinha a dizer e em seguida falou:
      - Bem, na verdade, vocs no precisam fazer isso! 
      Mas afinal ele disse: "Ento est bem", e Cris entendeu que ia a Palm Springs. Teve vontade de pular. Eles vo deixar! Meus pais vo deixar eu ir.
      Reprimindo um pouco a euforia, Cris jogou o pano de prato no balco e virou-se para os pais. Os dois tinham a mesma expresso de meses atrs, quando haviam 
dito que ela poderia passar as frias com os tios. Naquela noite eles a fizeram prometer que durante as frias na Califrnia ela no faria nada de que pudesse vir 
a se arrepender, ou ter vergonha de contar para eles.
      Hoje a abordagem foi um pouco diferente.
      - Voc pode ir, disse o pai, se tiver feito todos os deveres.
      - Sem problema, respondeu Cris, com alegria.
      Sentia que eles realmente confiavam nela, e isso era timo. 
      - Cris, disse a me. Foi muito legal da parte dos seus tios convidare voc. Espero que reconhea isso.
      - Eu reconheo, respondeu Cris. Muito obrigada por me deixar ir.
      - Marta disse que voc poderia convidar algumas amigas. Por que no convida a Brittany? sugeriu.
      - Est bem. Pensei em chamar a Jane e a Katie tambm. A imaginao de Cris rodopiava imaginando-se numa festa de camisola durante todo o final de semana, com 
as novas amigas. 
      - No fique triste se Jane e Katie no puderem ir.
      - E por que no iriam?
      A me pegou o pano de prato, dobrou-o e colocou de volta no lugar.
      - Bem, pelo que voc diz, elas so bastante populares.
      - Sim, e so mesmo!
      - O que estou querendo dizer  que voc no precisa se esforar tanto para ser aceita por essas meninas. H casos em que as melhores amigas podem ser garotas 
caladas e menos populares. Entendeu?
      - Acho que sim.
      - Pense um pouco nisso, concluiu a me, deixando Cris terminar de arrumar a cozinha.
      Suas palavras ressoavam na mente de Cris: Ser que a mame est querendo dizer que eu no sou popular ou que no deveria tentar ser popular? Essas meninas 
gostam mesmo de mim.. Querem que eu faa parte do grupo.  claro que vo querer ir comigo a Palm Springs.
      
      
      

Tudo Termina Em Pizza
7
      
      No horrio de almoo do dia seguinte, Cris ficou esperando Katie e Jane no lugar em que geralmente comiam. Mas nenhuma das duas apareceu. Viu a Brittany atravessando 
o gramado, cercada por quatro caras e ocupada demais para notar que ela estava ali sozinha.
      No d pra acreditar! Ser que minha me estava certa? Ser que a Jane e a Katie me descartaram? Cris sentou-se sozinha e tirou uma pra da sacola. A fruta 
estava to machucada que ela no conseguia encontrar nem um pedao que no estivesse mole.  sua volta, as pessoas se ajuntavam em grupos. Todos conversavam e riam, 
envolvidos em seu mundo particular. Cris sentia-se como um aliengena. No, pior: sentia-se invisvel, como se algum pudesse atravess-la sem sequer desorganizar 
suas molculas.
      Por que a Jane e a Katie me deixaram assim? O que h de errado comigo? Pensei que gostassem de mim. Detesto merendar sozinha.
      O que piorava ainda mais a situao era que imaginava Paula, naquele momento, almoando no seu antigo colgio. A amiga estaria sentada  beira da mesa, nunca 
na cadeira, tomando sua lata diria de suco de damasco e dizendo " isso a!" S que agora era a Melissa, no a Cris, que compartilhava seus segredos e ria das suas 
piadas.
      Cris deixou-se levar pela onda do "Se pelo menos...", e passou o resto do horrio de almoo sentindo pena de si mesma.
      Foi bom ouvir o som forte da campainha. Ela juntou suas coisas para ir para a aula de Espanhol. Esperava que Jane viesse correndo sentar-se  sua frente, mas 
ela nem apareceu. Descobriu mais tarde, atravs de Brittany, que tanto Katie quanto Jane haviam obtido permisso para faltar porque iriam preparar cartazes para 
o jogo de futebol que haveria aquela noite.
      Podiam ter pedido que eu ajudasse. Eu sei pintar.
      Quando chegou em casa, ficou no quarto.
      - As coisas no esto correndo muito bem, Puff, disse ao seu ursinho de pelcia.
      Decidiu repassar mentalmente todas as razes pelas quais algum poderia no gostar dela. Resolveu fazer uma experincia. Ficou em p, bem retinha, olhando 
para o espelho oval da penteadeira, e tentou fazer uma expresso como que a dizer: "Sou boa demais pra vocs". Contudo no gostou muito. O brilho dos olhos estava 
natural demais.
      Ento tentou uma outra: "Olhem pra mim; eu sou divertida". Essa tambm no deu certo. Quando dava um sorriso largo, s via os dentes grandes. No parecia livre 
e despreocupada como a Jane quando sorria.
      Ao tentar mais uma expresso - "Estou to sozinha! Algum quer ser minha amiga?" -, David entrou correndo no quarto sem bater.
      - O que voc quer? gritou ela para o irmo. Saia j do meu quarto!
      - T bem, t bem, concordou dando dois passos para trs. Estava oficialmente "fora" do quarto dela.
      - Quer fazer o favor de fechar a porta?
      Ela preferia exercitar sua autopiedade em particular.
      - Tudo bem, se voc no quer falar com a pessoa que est ao telefone, eu desligo pra voc.
      - David!
      Cris deu um salto e empurrou o irmo para que sasse do caminho, chegando ao telefone antes dele.
      
- Al! disse sem flego.
      - A rainha Cristina no deseja falar! gritou David, em direo ao telefone. Cris cobriu o receptor com a mo e repreendeu o irmo.
      - Saia j daqui!
      - Al! disse com doura, aproximando o telefone da boca.
      - Ol, Cris, disse Jane, como sempre, animada. Voc vai ao jogo hoje  noite? No vi voc hoje, e no pude perguntar. A Katie precisou de minha ajuda com alguns 
dos seus deveres de mascote, e eu faltei  aula de Espanhol. Perdi muita coisa?
      - No. Temos de preparar o prximo dilogo pra segunda-feira.
      Cris sentiu uma onda de alegria. Suas amigas no tinham esquecido dela.
      - Ai, que chatice! Ainda no decorei nem o dilogo da semana passada, reclamou Jane. Espanhol no  bem minha matria preferida! E ento, voc vai ao jogo 
hoje?
      - Acho que no. Tenho de olhar meu irmo.
      - V se consegue ir. Ns podemos lhe dar uma carona.
      - Vou ter de pedir aos meus pais. Posso ligar de volta se der certo?
      - Claro. Espera um pouco... Katie acabou de dizer que talvez voc queira ir conosco  igreja. Quer ir nesse domingo?
      - Sim, se no for problema.
      - Claro que no. Ns passamos a mais ou menos s oito e quarenta e cinco.
      - Est timo! disse Cris, sentindo-se como se o cu todo tivesse ficado desanuviado, e o sol voltado a brilhar.
      Jane a inclura nos planos para o jogo de futebol! Agora era a hora ideal para convid-la para ir a Palm Springs.
      - Jane, disse Cris, com voz alegre. Voc gostaria de ir a Palm Springs no prximo fim de semana?
      - Est brincando!  claro que sim! Quem vai? disse Jane, sem hesitar.
      - Minha tia e meu tio. Eles disseram que eu poderia levar umas duas ou trs amigas.
      - Quando vai ser isso?
      - Na prxima quinta-feira. Voc teria de faltar  aula de sexta.
      - Ah, que peninha! Perder aula?! riu Jane. Tenho certeza de que minha me vai deixar. Tenho estado super boazinha e obediente, porque esperava que o Greg me 
chamasse pra sair e queria que ela estivesse de bom humor quando isso acontecesse. Vou aproveitar e usar meus "pontinhos positivos" agora. Talvez o Greg nunca acorde 
e reconhea como eu sou encantadora!...
      Cris ouviu algum, provavelmente a Katie, rindo no fundo.
      - Eu ia convidar a Katie tambm. Voc acha que ela poderia ir?
      - Ela est aqui. Vou perguntar.
      Cris ouviu a conversa abafada ao fundo. Quando Jane pegou de volta o telefone, disse:
      - A Katie no vai poder ir por causa do jogo de futebol na prxima sexta.
      - Eu tinha me esquecido. Que pena!
      - Mas a Brittany est aqui, acrescentou Jane. Ela disse que adoraria ir conosco. Tudo bem?
      - Claro!
      - A propsito, disse Jane, a Katie disse que temos de ir para o ginsio de esportes dentro de meia hora, ento ande depressa e me ligue se quiser uma carona.
      - Est bem. Obrigada. Tchau.
      Era surpreendente como Cris sentiu-se animada depois daquele telefonema. Sua me no permitiu que ela fosse ao jogo, mas ainda tinha tanta coisa boa para esperar: 
igreja no domingo, Palm Springs no outro fim de semana... Por que duvidara da lealdade das amigas? Elas a convidaram para o jogo, no foi?
      *****
      
      No domingo seguinte, Cris acordou de bom humor. Vestiu o vestido azul-cobalto e ajustou o cinto prateado, lembrando-se de quando a tia Marta o comprara nas 
frias passadas. A ltima vez que o usara fora na noite em que Ted a levara ao concerto da Debbie Stevens. Ela havia-se sentido bonita e sofisticada com aquela roupa 
cara. Depois de aplicar a maquiagem com cuidado, Cris abaixou a cabea e escovou o cabelo cor de noz moscada at deix-lo todo cheinho. Depois, cobrindo os olhos, 
borrifou fixador na franja. Uma ltima olhada. Uma ltima pincelada de rmel.
      Pensando ter ouvido um carro l fora, Cris pegou a bolsa e a Bblia que Ted e Trcia lhe haviam dado e correu para a porta.
      - No esquea de levar a chave, gritou sua me, de dentro do quarto. Talvez ns saiamos para fazer umas compras enquanto voc estiver fora.
      - Tudo bem. Vejo vocs mais tarde. Tchau. David desviou o olhar da televiso quando Cris passou por ele, e perguntou:
      - Aonde voc vai?
      -  igreja. Tchau.
      A caminho da igreja, Jane e Katie ficaram elogiando Cris, dizendo o quanto ela estava linda. Cris sentia-se meio sem jeito, mas, ao mesmo tempo, satisfeita. 
Apesar de estar um pouco sem graa, isso era bem melhor do que ser ignorada! Quando chegaram ao imenso estacionamento, Cris perguntou surpresa:
      - Esta  sua igreja?
      - Sim. Por qu?
      -  enorme!
      - No  to grande assim, disse Katie. Como era a sua igreja l em Ohio?
      - Wisconsin. Nossa igreja era... bem, como uma igreja. Branca, com uma torre, e as crianas tinham aula no subsolo. Nossa classe de escola dominical de mocidade 
tinha uns sete alunos, mas s vezes nem isso.
      - Ento prepare-se para uma surpresa! Acho que nosso grupo de jovens tem uns duzentos e cinquenta.
      Seguiram rapidamente at um prdio que Jane identificou como "Ala Jovem". Cris ficou realmente admirada quando entraram numa imensa sala, com cadeiras organizadas 
como em um cinema. Quatro rapazes estavam  frente tocando guitarra, enquanto um outro tocava teclado. Alguns jovens estavam sentados, outros em p, e todos conversavam 
mais alto que o volume da msica.
      - Voc est bem? perguntou Jane, percebendo a expresso de surpresa de Cris.
      - Nunca estive numa escola dominical assim! exclamou em meio ao barulho do som.
      - Venha! Vamos procurar um lugar pra sentar.
      Encontraram trs lugares juntos. Cris sentou-se na ponta e ficou olhando em volta enquanto Jane e Katie falavam sem parar. Uma moa bonita, de pele linda e 
dentes brancos, perfeitos, tocou o ombro de Cris.
      - Ol! Seja bem-vinda! Voc poderia preencher esta ficha pra ns? Gostaramos de inclu-la na nossa lista de correspondncia e inform-la sobre as nossas atividades.
      Ela tinha um cheirinho agradvel, suave...
      Cris preencheu o carto com nome e endereo. A ltima linha dizia "passatempo predileto".
      - O que  que eu escrevo aqui? perguntou para Jane. No tenho nenhum hobby.
      - Sei como  isso, disse Jane. Parece bobagem. Voc gosta de natao, esqui ou coisa parecida?
      - Pra ser sincera, no.
      - J sei! exclamou Katie, com um olhar maroto. Escreva "empapelar" com papel higinico.
      - Est brincando!
      - No, escreva sim! Vai ser engraado! insistiu Jane. 
      Est bem, pensou Cris. A moa disse que  s pra eles mandarem correspondncia. E resolveu colocar isso mesmo.
      - Obrigada, disse a moa, que havia esperado pacientemente que Cris preenchesse a ficha. Estamos contentes com a sua presena. Volte sempre!
      - Ela  simptica.
      - Quem, Wendy?
      Cris confirmou com um aceno de cabea, olhando em direo a Wendy. Seu cabelo loiro, que caa nas costas numa trana francesa, parecia entremeado de fios de 
ouro.
      - Wendy  o nosso modelo, disse Katie. Ela  to perfeita! Todas ns gostaramos de ser como ela quando tivermos sua idade.
      - Ela  a namorada do Rick, disse Jane.
      Cris gelou. O nome Rick Doyle deixou-a desconcertada.
      - Eles no esto namorando, disse Katie asperamente.
      - Ouvi dizer que j saram juntos duas vezes, e ela estava no jogo sexta-feira. Vai ver que saiu com ele depois do jogo tambm.
      - Ento eles saram uma, duas vezes juntos, hein? Portanto, na sua opinio, Jane, esto praticamente noivos.
      - Eu no disse isso.
      - Mas foi o que insinuou.
      - Katie, detesto quando voc usa esse vocabulrio de M. S., disse Jane.
      - O que  M. S.? perguntou Cris.
      - "Menor Superdotada", disse Jane meio brava, como se tivesse xingando Katie. Cris ousou interromper a briga de mentirinha:
      - O que  insinuar?
      Katie olhou para Jane e depois para Cris, e seu cabelo brilhante fez aquele movimento de leque.
      - Significa que talvez no seja isso que Jane tenha dito, mas l  o que ela quis dizer.  o mesmo que dar a entender.
      - Dar a entender? perguntou Cris, franzindo o nariz.
      Katie e Jane olharam uma para a outra e caram na risada. Cris no sabia se estavam rindo dela, uma da outra ou o qu. Toda aquela sensao de insegurana 
comeou a voltar. Ela pensou em sair dali, ir ao banheiro e ficar l escondida por um tempo.
      Contudo, naquele exato momento, um rapaz com cerca de trinta anos, cabelo castanho e culos, subiu ao palco e disse:
      - Bom dia a todos!
      Os jovens comearam a sentar-se e aquietar. O pastor de jovens deu alguns avisos rpidos e disse:
      - Agora passo a palavra ao presidente da mocidade para cumprimentar nossos visitantes.
      De repente, Rick Doyle pegou o microfone. Alto e sorridente, com cala escura e camisa branca, ele segurava alguns cartes na mo. Correu os olhos pelo salo 
por um instante e a, como se tivesse encontrado o que procurava, fixou o olhar em Cris e continuou olhando para ela enquanto falava:
      - Bom dia! Temos quatro visitantes hoje, e quero que todos os faam sentir-se em casa. Cristina Miller? Pode fazer o favor de ficar em p?
      Cris gelou. O corao batia em disparada. No conseguia se mexer.
      - Levanta, insistiu Katie, puxando seu brao.
      - Vamos, fique de p, falou Jane.
      - Ela  um pouco tmida, disse Katie, alto o suficiente para todo o auditrio ouvir.
      Juntando toda a sua coragem, Cris lutou contra o pnico que a paralisava e, tremula, ficou em p.
      - Cristina  aluna do segundo ano no Kelley High, disse Rick, lendo o carto. E diz aqui que seu hobby  "empapelar" com papel higinico.
      O auditrio todo rompeu em risos.
      - Pelo menos ela confessa, disse Rick alto ao microfone, olhando bem para ela com um enorme sorriso. Estamos muito contentes em t-la conosco, Cristina.
      Ela sentou-se e ficou olhando para a frente, dentes cerrados, rosto queimando de vergonha. Jane e Katie riam ao seu lado, enquanto Rick apresentava os outros 
trs visitantes.
      Cris queria sumir, evaporar. Certamente aquele agora era o seu maior vexame.
      Em poucos minutos o grupo dividiu-se em classes para a lio dominical. Cris continuou cabisbaixa, olhando para o cho, e relutantemente foi seguindo Jane 
e Katie para a classe que escolheram: "Primeira aos Corntios".
      De repente algum parou  sua frente, impedindo sua passagem. Ela olhou-o sem graa, prendendo o flego. Era Rick!
      - Ento, disse ele, com um sorriso amplo. Seu nome  Cristina.
      Era alto, simptico, bonito... era demais!
      Cris s conseguiu acenar com a cabea e dar um sorrisinho amarelo.
      - Sou o Rick, disse ele, estendendo a mo.
       Cris forou-se a estender-lhe a mo suada, que ele apertou firmemente. Tentou dizer: "Oi", mas a palavra no saa. 
      Rick soltou sua mo.
      - Tenho contado para todo mundo sobre a noite em que surgiu de trs dos arbustos de minha casa. Foi incrvel... No foi voc que vi no corredor da escola, 
semana passada? Cris deu uma risadinha forada e acenou de leve, com a cabea.
      - Bem,  melhor ir para a classe, sugeriu Rick. Acho que suas amigas entraram aqui. Ele abriu a porta de uma sala com uns trinta e cinco lugares em semi-crculo 
duplo.
      Jane e Katie estavam na fileira de trs, conversando animadamente. Pararam imediatamente e olharam surpresas quando Rick segurou a porta para Cris entrar, 
e apontou dois lugares vazios na fileira  frente das duas. Cris notou que Jane e Katie no tinham guardado lugar para ela. Ento, juntando toda a sua coragem e 
compostura, caminhou at a fileira da frente, onde Rick fazia sinal para ela sentar-se ao seu lado.
      Era quase impossvel prestar ateno ao professor.  verdade que ela conseguiu encontrar na Bblia os versculos que ele mencionou, mas as letras embaralhavam, 
pois Rick, que no tinha Bblia, acompanhava a leitura com ela.
      Que situao idiota! pensava Cris. De que adianta os meus sonhos se realizarem, se no consigo simplesmente relaxar e aproveit-los!
      A mesma coisa lhe acontecera nas frias passadas, quando fora passear de bicicleta na ilha Balboa, com o Ted. Ela havia jurado nunca mais ficar desligada daquele 
jeito quando estivesse com um rapaz. Forou-se ento a escutar e a compreender o que o professor explicava sobre o versculo. Concentrou-se no texto at conseguir 
ler: "No vos enganeis: as ms conversaes corrompem os bons costumes." (l Co 15.33.)
      Algum levantou a mo, e disse:
      - Ainda acho que a gente tem de ter amigos que no sejam cristos, porque seno, como vamos testemunhar para eles?
      - Verdade, verdade, disse o professor, um senhor mais velho, com culos grossos e cabelo escuro. Mas a pergunta principal : esses amigos no esto levando 
voc para o buraco? Em outras palavras: voc est exercendo influncia sobre eles, ou so eles que esto influenciando voc?
      - A maioria dos meus amigos no  crente, disse um dos rapazes. No tem quase nenhum cristo na minha escola. E, pra dizer a verdade, algumas das meninas no 
crentes com quem j sa, tm mais moral do que algumas das garotas crists que conheci.
      - Est certo, voc tem razo nisso, declarou o professor, ficando de p e parecendo realmente interessado na discusso. Agora pensem um pouco sobre isto: ser 
que  certo um verdadeiro cristo envolver-se num relacionamento com uma pessoa no crist?
      - De que outro jeito vo conhecer a igreja, Deus e tudo mais? perguntou uma garota.
      - No estou falando de fazer um programa, como convid-los para vir  igreja, ou sair em grupo, com os amigos cristos. Estou falando de namorar. O que vocs 
acham?
      Todos hesitavam em responder, mas Cris os ouvia comentando entre si. Ela achava que no tinha problema, desde que o cristo permanecesse firme. Contudo no 
disse nada.
      - Deixem-me mostrar-lhes uma coisa, continuou o professor. Eis o que penso sobre o "namoro missionrio", isto , quando voc acha que  missionrio e tem de 
namorar todas as belas incrdulas de Escondido.
      Todos riram.
      - Rck, venha aqui. Fique ao lado da minha cadeira, est bem? Isso, aqui mesmo. Agora, vejamos... Katie! Venha aqui, Katie, e suba em minha cadeira. E isso 
a. Est bem. Agora, Rick, voc  "Pedro Incrdulo".
      O grupo caiu na risada. Cris riu tambm. Rick parecia to resoluto e autoconfiante ali, ao lado da cadeira, de braos cruzados!
      - E Katie, voc  "Katie Crist".
      Katie, os olhos verdes brilhando mais que nunca, fez uma pequena reverncia, equilibrando-se sobre a cadeira. Cris sentiu uma pontinha de inveja. Mas sabia 
que teria morrido de vergonha se o professor a tivesse chamado para ficar em p, ao lado de Rick, na frente da classe.
      - Katie, voc  uma crist totalmente comprometida com Deus. Entregou sua vida a Cristo, quer viver para ele e obedecer-lhe em tudo.
      - Rick, quer dizer, Pedro Incrdulo, voc no entende nada das coisas do Senhor. No que no tivesse ouvido o evangelho. Mas ainda no entregou a vida a Cristo. 
S sabe viver de acordo m os princpios do mundo, seguindo os prprios desejos. 
      Rick fez pose de vilo de pea teatral antiga. Abriu um sorriso largo, mostrando bem os dentes, levantou as sobrancelhas e torcia um bigode imaginrio.
      - Katie, voc acredita que o namoro missionrio  o nico jeito de alcanar esse cara, e ento comea a namor-lo.
      - ooooo, Katie! gritou Jane, enquanto os outros riam.
      - E assim, Katie, voc e Pedro do as mos. Katie obedeceu, o rosto imediatamente ruborizado, quase contrastando com o cabelo ruivo-alaranjado.
      - Katie, voc  uma crist to firme, que vai influenciar o Pedro Incrdulo. Ento, puxe-o para cima da cadeira onde est. Isso, puxe com fora!
      Katie puxava com toda fora, mas Rick quase nem se mexia.
      - No  fcil, hein? Agora, Pedro Incrdulo, tente influenciar nossa Katie Crist. Puxe-a para baixo.
      Rick deu um rpido arranco e Katie literalmente caiu da cadeira nos braos dele. Com um movimento rpido, ele a segurou evitando que ambos cassem ao cho.
      A classe disparou a rir, e Katie afastou-se de Rick. De rosto ainda vermelho, ela perguntou ao professor:
      - Posso me sentar agora ou voc ainda quer que eu deite na frente de um trem ou coisa parecida?
      - Obrigado, Katie. Voc tem excelente esportiva. Pode sentar-se.
      Rick e Katie voltaram aos seus lugares, e o professor continuou demonstrando sua lio.
      - O que vocs acham? Era mais fcil a Katie Crist elevar o namorado para o seu nvel, ou o Pedro Incrdulo pux-la para o seu?
      A turma ficou em silncio. Ningum precisava responder.
      Todos entenderam.
      - O versculo trinta e trs do captulo quinze da Primeira Carta aos Corntios, deixa isso bem claro: "... as ms conversaes corrompem os bons costumes". 
Se vocs no gravarem mais nada desse captulo, procurem ter em mente pelo menos esse versculo. As ms amizades podem estragar sua vida. Seja prudente ao escolher 
seus amigos.  voc quem tem de estabelecer o seu padro de comportamento. Seja firme. No v na onda dos outros.
      O professor andou de um lado para outro por alguns segundos, pensando no que iria dizer em seguida.
      - E todos vocs que pensam que Deus os chamou para um namoro missionrio, bem, no se enganem. Na prxima semana trarei minha irm aqui. Ela lhes contar sobre 
os resultados do seu namoro missionrio. Acabou-se casando com o cara, e ele ainda no  salvo. Esto casados h doze anos, tm trs filhos, e minha irm  a pessoa 
mais solitria que conheo.
      Ele olhou para o relgio um instante e voltou a encarar a turma. A expresso de tristeza em seu rosto demonstrava a dor que sentia pela situao da irm.
      - Por hoje  s. Na semana que vem terminaremos o captulo quinze da Primeira Carta aos Corntios. Leiam do versculo trinta e cinco at o final e preparem-se 
para discutir sobre a ressurreio.
      Rick levantou-se e comeou a conversar com alguns rapazes que caoavam dele, chamando-o de Pedro Incrdulo. Ele no estava exatamente ignorando Cris, mas tambm 
no a envolveu no papo. Ela deu um tempo ali onde estava, esperando Jane e Katie se aproximarem para poder juntar-se ao grupo que saa com elas. Todas as outras 
meninas estavam caoando de Katie, falando sobre a demonstrao na cadeira.
      As sete garotas sentaram-se juntas no templo. Instantes antes do comeo do culto Rick passou pela fileira em que Cris estava. As meninas ficaram a observ-lo 
e viram-no passar por quatro pessoas para sentar-se ao lado de Wendy, duas fileiras  frente delas. Wendy, a moa perfeita. Parecia que ela havia guardado lugar 
para ele.
      - T vendo? cochichou Jane para Katie, debruando-se sobre Cris, que estava sentada entre as duas. Eu no lhe disse que eles esto namorando?
      - E da? respondeu Katie, com voz cantarolada. Ele segurou a minha mo em pblico!
      As duas riram baixinho do comentrio de Katie, mas Cris ficou quietinha entre elas, porque algo a incomodava. Por que Jane teria dito a Brittany que Rick gostava 
dela e estava interessado nela, j que tinha tanta certeza de que Wendy e Rick estavam namorando?
      Cris tentou lembrar-se de tudo que Brittany havia dito sobre o suposto interesse de Rick por ela. Todas as vezes em que conversaram sobre isso, Brittany dissera 
que sua fonte de informaes tinha sido a Jane. Ento, por que Jane no comentara nada disso? Ao que parecia, a nica opinio de Jane sobre esse assunto era que 
a Wendy havia conseguido fisgar o Rick.
      Cris procurava participar do culto, levantando-se nas horas Certas e acompanhando as msicas no hinrio. Contudo aquelas perguntas sem resposta sobre Rick 
e as coisas que Brittany havia dito no paravam de girar em sua mente.
      Quando o sermo comeou, Cris escreveu no boletim um bilhete para Jane: "Jane, voc disse a Brittany que o Rick queria me conhecer?"
      Jane leu e encarou-a com um olhar que expressava: "Espera a, voc deve estar brincando!" Ento escreveu: "No. Por qu?" "Brit me disse que voc tinha falado 
com ele umas duas vezes, e que ele descobrira sobre a festa da camisola na sua casa, e queria saber quem eu era. Isso  verdade?"
      Jane leu o bilhete discretamente, e virou-se para Cris com Um olhar que dizia: "Sinto muito, mas no". Acenou levemente com a cabea, numa negativa, balanando 
o cabelo curto encaracolado.
      Cris mordeu o lbio e piscou depressa para evitar que alguma lgrima se formasse. Por que Brittany mentiu pra mim? Por que ela inventou tudo aquilo? Ser que 
era s pra me fazer tomar aqueles laxantes?
      Jane rabiscou depressa na frente do boletim da igreja: "No se preocupe com isso. Parece que voc conseguiu conhecer o Rick por seus prprios mritos. No 
precisa que Brit arranje as coisas pra voc".
      Cris sorriu para Jane agradecendo, mas seu corao ainda estava pesado. Tentou prestar ateno ao que o pastor dizia, mas seus olhos voltavam sempre ao cabelo 
castanho encaracolado de Rick e  trana de fios de ouro de Wendy. Eles at ficavam bonitos juntos, vistos assim de costas.
      Da a pouco, a congregao se levantou para cantar o hino final e a reunio terminou. Katie, Jane e Cris permaneceram conversando com outras garotas. Rick 
estava batendo papo com alguns rapazes a poucos metros de distncia.
      - Vamos l, disse Rick aos outros. Vamos convid-las. Ento eles se aproximaram do grupo onde Cris estava.
      - Vocs querem sair conosco para comer uma pizza? perguntou Rick.
      - Claro, disse Katie. Quem mais vai? Rick deu uma lista de nomes, citando o da Wendy em primeiro lugar.
      - Eu no posso, disse Jane. Ns vamos visitar minha av.
      - E voc, Cris?
      - Acho que no. Eu vim de carona com a Jane.
      - Posso deixar voc em casa depois, ofereceu Rick.
      Cris ficou em dvida. Depois lembrou que sua me a avisara para levar a chave porque eles talvez fossem fazer compras. Provavelmente nem esto em casa, pensou.
      - Claro, seria legal.
      - Seria mais do que legal, sussurrou Jane, por trs das costas de Cris. E, em voz alta, disse:
      - Divirtam-se!
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Devagar Querida
      8
      
      Cris e Katie seguiram os rapazes at o estacionamento, onde o grupo se organizava para ir  pizzaria. Espremidas no banco de trs do Mustang vermelho-cereja 
do Rick, Cris e Katie ficavam batendo os joelhos. Um cara que Cris no conhecia sentou-se na frente com o Rick.
      - Legal o seu carro, disse Katie ao sarem. Wendy os seguia com seu Volks conversvel.
      - Que ano ?
      - 68. Foi da minha me. Meus pais guardaram para mim. Voc j dirige, Katie?
      - No.
      - E voc, Cris?
      - No.
      - Ento vocs ainda no tm dezesseis anos*.
      - Temos quinze, disse Katie.
      - Ainda no saram das fraldas, comentou o cara ao lado do Rick.
      Katie deu-lhe um tapa no brao.
      * Idade mnima para se tirar carteira de motorista nos Estados Unidos. (N. da T)
      - Ei! Qual , cara?! Quinze anos  uma idade tima, viu?!
      Katie e o rapaz trocaram comentrios rpidos e sarcsticos at chegarem  Pizza Hut. Cris recostou-se no banco e ficou assistindo, num misto de animao e 
nervosismo.
      Duas vezes percebeu que Rick olhava para ela pelo retrovisor. O que ser que ele est pensando?
      Rick estacionou o Mustang ao lado do carro de Wendy e puxou o banco para a frente, enquanto Cris tentava descer com elegncia. Estava com medo de dar alguma 
mancada, como tropear ou rasgar o vestido. Mas nada aconteceu. Talvez os seus dias de desajeitada tivessem acabado. Talvez estivesse tornando-se to madura quanto 
se sentia ao vestir aquela roupa.
      Rick foi caminhando ao lado dela e abriu a porta do restaurante para que ela passasse.
      - Primeiro as damas, disse ele, com uma reverncia bem humorada. Bonito vestido.
      - Obrigada, disse Cris, criando coragem e olhando-o de f re n te.
      Ser que ele se sentaria ao lado dela? Era to alto que ela se sentia baixinha. Nenhum outro rapaz a fazia sentir-se to pequena assim. Quando ela passou pela 
porta, ele se inclinou e disse bem perto do ouvido dela:
      - Desta vez voc no vai fugir, vai?
      Cris enrubesceu e lhe sorriu. Ele era realmente muito bonito
      - No. Desta vez no.
      - timo! exclamou Rick, com um sorriso que abalou seu corao.
      Ele passou por ela, conduzindo-a ao balco onde um grupo de oito jovens tentava decidir que tipo de pizza encomendar.
      - Eu s tenho quatro dlares, disse Cris baixinho para Katie. Para quem eu devo dar?
      - Voc tem mais do que eu. D aqui, que eu entrego. Katie aproximou-se de Rick com um imenso sorriso.
      - Oh, Pedro Incrdulo, toma a sete dlares. So meus e da Cris. E queremos Coca-Cola, t?! Katie virou-se para Cris:
      - Voc gosta de Coca, no gosta?
      Cris concordou com um aceno de cabea. Naquele momento veio-lhe  mente uma lembrana marcante de certa festa de participara em Newport Beach, nas frias. 
Ela havia ficado sozinha e estava tentando se enturmar. Tinha pedido uma Coca e, para seu horror, um dos surfistas pensou que ela estivesse querendo cocana, e mandou-a 
para cima, para o quarto onde alguns jovens estavam-se drogando. Ela havia sado correndo l, sentindo-se uma criana. Ento encontrou o Ted, e eles ficaram sentados 
no quebra-mar, olhando o pr-do-sol e conversando. Ainda bem que eu fugi porta afora daquela vez. Mas desta vez vou ficar!
      Depois de pedir as pizzas, o grupo foi para o salo dos fundos. Cris sentou-se  mesma mesa que Katie e, para sua alegria, Rick passou depressa por outro rapaz 
e sentou-se bem ao seu lado.
      Wendy e seus amigos sentaram-se em outra mesa. Dois rapazes pareciam competir pela ateno da moa. 
      , parece que ela no  namorada do Rick! pensou Cris, com alegria. E ele sentou-se do meu lado! Sentindo-se leve e com vontade de flertar um pouquinho, Cris 
ria de tudo que Rick dizia.
      Contudo era Katie que animava a conversa, e os rapazes adoravam seu jeito moleque e alegre, que fazia todos se sentirem bem em sua companhia.
      Cris quase no falou. Todo mundo conversava to rpido, ela mal conseguia dizer uma ou outra palavra. Alm do que, sempre que pensava em alguma coisa interessante, 
o grupo j tinha mudado de assunto.
      Katie era rpida. Tinha tiradas incrveis. Cris gostaria que Katie pudesse ir com elas para Palm Springs, no prximo final de semana.
      Quando chegou a pizza quente, coberta de calabresa, Cris comeu s uma fatia. Katie comeu vrias, e os rapazes devoraram o restante. Rick deve ter comido uns 
dez pedaos! 
      - Acho que eu e Cris devemos receber algum dinheiro de volta, disse Katie, olhando a travessa vazia  sua frente. Ns no comemos os nossos sete dlares. S 
contribumos para sustentar seu "vcio" de pizza, rapazes.
      - Gostaria de ser o primeiro a lhe agradecer, falou um deles. Estava comeando a sentir uma sndrome de dependncia de calabresa. Voc me salvou, Katie Crist!
      - Ah, que timo! Logo agora que eu estava ficando acostumada com o apelido "Katie Oncinha"!
      - Aqui, disse Rick, jogando uma moeda de vinte e cinco centavos no centro da mesa. A est sua restituio.
      Outro rapaz jogou outra moeda de vinte e cinco centavos na mesa e indagou:
      - Ei, vocs lembram do lago Hume? T na hora de defender o seu ttulo, Katie. Vamos l, rapazes, o jogo da moeda!
      - Sabe jogar? Perguntou Rick a Cris.
      - No.
      - A gente vai passando duas moedas por baixo da mesa. Katie fica na ponta observando e, quando ela disser "pare", colocamos as mos fechadas sobre a mesa.
      - Assim, disseram os outros rapazes, colocando as mos sobre a mesa, com o polegar para cima, e batendo nela como um tambor.
      - Da a Katie diz "pare" de novo, e temos de abrir as mos e colocar as palmas na mesa. Mas o segredo  o seguinte: se voc estiver com alguma das moedas, 
no pode deixar ningum perceber. Da a Katie tem de adivinhar com quem esto as moedas.
      - Entendeu? Perguntou Katie.
      - Acho que sim, disse Cris, aproximando-se mais da mesa. Vamos ensaiar.
      Katie ficou  frente.
      - Pronto? J!
      Cris colocou as mos sobre os joelhos debaixo da mesa, esperando que lhe passassem a moeda. Todos os rapazes mexiam os braos, mas ela no conseguia ver quem 
estava passando.
      De repente, o cara  sua direita passou-lhe uma moeda. Cris passou depressa para a mo esquerda e levou a mo para Rick, para passar para ele. Assim que tocou 
na mo dele para dar-lhe a moeda, ele passou a outra para a mo dela!
      - Pare! Gritou Katie.
      Nesse momento, todos colocaram as mos fechadas sobre a mesa. Cris apertou bem a mo e ficou a bater na mesa com os outros.
      - Pare!
      Todos os rapazes bateram as mos abertas na mesa. Cris remexeu um pouco, tentando fazer com que seus dedos e as moedas se ajeitassem. No deu certo. Uma moeda 
apareceu entre os dedos do meio e outra escorregou da mesa e foi parar no cho. Cris caiu na risada, e Katie disse:
      - Deixe-me adivinhar. Ser que est com a Cris?
      - Isso foi s uma experincia, disse Rick depressa. No conta pontos.
      - Tudo bem, disse Katie, pegando a moeda do cho e colocando-a sobre a mesa. Agora esta conta de verdade. Todo mundo pronto?
      Katie observava cada jogador, com seus olhos vivos de jade, enquanto as moedas iam passando de mo em mo.
      - Pare!
      Eles bateram na mesa.
      - Pare!
      Todos abriram as mos sobre a mesa. Katie mencionou duas, mas nenhum delas estava com as moedas. Rick estava com uma e riu quando Cris disse?
      - Isso no vale! A sua mo  o dobro da minha!
      - Aqui, disse Rick, enfiando a mo no bolso e tirando uma moedinha menor. Esta aqui  mais ou menos do seu tamanho? Perguntou, entregando-a a Cris.
      Todos riram.
      - Vamos l, disse Katie. S moedas de vinte e cinco centavos! Vamos em frente!
      Brincaram muitas rodadas, e Cris passou a maior parte do tempo s olhando, pois todas as vezes que ficava na roda era pega com a moeda. Ela no se importava. 
Estava se divertindo muito.
      - Tenho de ir embora, disse um dos rapazes.
      Cris no queria ir. Estava muito agradvel. Sua vontade era ficar ao lado de Rick a tarde toda, rindo e se divertindo. Mas todos se levantaram e foram paro 
o carro.
      Novamente Cris sentou-se atrs, ao lado de Katie, e Rick perguntou:
      - Vocs viro ao culto hoje  noite?
      - No sei, respondeu Cris.
      Ela no tinha certeza se seus pais permitiriam, e ainda no havia terminado o dever de casa.
      -  provvel que sim, respondeu Katie, mas acho que voc no estava perguntando pra mim, estava?
      Rick no respondeu. Tinha ligado o rdio, e o rapaz ao lado dele comeou a batucar no painel do carro.
      Quando Rick parou na frente da casa de Cris, ela ficou surpresa por ver o carro dos pais. Achava que eles ainda estivessem fazendo compras. O carro parecia 
um calhambeque velho perto do Mustang polido de Rick.
      - Obrigada pela carona, Rick, disse ao descer.
      - Sempre s ordens, respondeu ele.
      - Vejo vocs mais tarde.
      Cris acenou para o pessoal e abriu a porta da casa com o corao cantarolando.
      - Onde voc esteve? perguntou sua me, saltando do sof.
      - Na igreja. Eu lhe disse que ia  igreja.
      - Igreja? Das oito e meia da manh at as duas e meia da tarde? Esteve esse tempo todo na igreja?
      - No. Quer dizer, sim, quer dizer...
      Seu pai veio se aproximando, e Cris respirou fundo.
      - Eu fiquei na igreja at o meio-dia, e da sa pra almoar.
      - Voc no nos perguntou se podia.
      - S fiquei sabendo depois da reunio.
      - Cris, voc devia ter telefonado, disse seu pai com firmeza. Ns estvamos super preocupados. No tnhamos idia de onde voc pudesse estar. Nem nos lembrvamos 
de qual igreja voc tinha falado que ia.
      - Mas pensei que vocs fossem sair. Achei que no estivessem em casa.
      - Ns samos, mas chegamos antes do meio-dia. No sabamos onde voc podia estar.
      David entrou correndo pela porta da frente.
      - Quem era aquele cara no carro vermelho, Cris? Voc viu aquele carro, pai? Legal! Tentei apostar corrida com ele at a esquina na minha bicicleta, mas ele 
era muito rpido.
      Seu pai levantou a sobrancelha e encarou-a.
      - Voc saiu para almoar com um rapaz?
      - Sim, isto , mais ou menos. Foi uma turma grande de rapazes e moas da igreja. Rick me trouxe em casa. Duas outras pessoas estavam no carro conosco. Katie 
estava comigo.
      Cris falava depressa, com medo de estar em maus lenis.
      - E o que aconteceu com a Jane? perguntou sua me, cruzando os braos.
      - Ela teve de ir pra casa depois da igreja, mas eu e Katie fomos almoar com a turma, porque o Rick ofereceu pra nos trazer em casa depois.
      - E por que voc no voltou com a Jane?
      - Eu, eu no sei. Acho que porque queria sair com o pessoal.
      Seus pais se entreolharam e em seguida se voltaram para Cris.
      - Escute aqui, mocinha, disse seu pai severamente. Tenho certeza de que no era sua inteno nos preocupar assim, mas devia ter sido mais prudente. Devia ter 
vindo com a Jane ou, no mnimo, telefonado para perguntar sobre o almoo. Ns no permitimos que voc saia com rapazes, e isso inclui aceitar carona de pessoas que 
no conhecemos. Especialmente adolescentes. Na verdade, no quero que voc saia de carro com um bando de adolescentes, mas de jeito nenhum! Entendeu?!
      - Sim. Desculpe. Pensei que no fosse problema, disse Cris, olhando para o pai.
      A expresso dele abrandou-se.
      - , os jovens nunca pensam, e  esse o problema.
      - Voc tem de ser mais responsvel, querida, disse sua me, recostando-se novamente no sof. No pode ficar fora horas a fio sem que saibamos onde est. Entende?
      - Sim, entendi, disse Cris.
      No gostava daquela sensao ruim de enjo, que sempre tinha quando seus pais "lhe davam conselhos" daquele jeito. Sempre acabava sentindo-se mal e tola por 
no ter avaliado
      bem as coisas antes.
      - Mais uma coisa, acrescentou o pai. Onde voc arrumou esse vestido?
      - A tia Marta comprou pra mim quando fomos a San Francisco.
      Seu pai abanou a cabea.
      - Vocs, jovens, sempre querem apressar as coisas. Tentam parecer mais velhos do que so. Abreviam os anos da juventude. Voc no entende que uma vez que a 
juventude passar, ela no volta mais? Ele aproximou-se de Cris, olhos marejados de lgrimas.
      - V devagar, querida, disse com voz rouca. Por favor, v mais devagar!
      Durante toda a semana as palavras de seu pai perturbaram seu sossego. Em casa, andando pelos corredores da escola, jogando vlei na aula de Educao Fsica, 
enfim, onde quer que estivesse, parecia ouvir seu pai dizer: "V mais devagar, querida".
      Depois de passar trs dias remoendo essas palavras, Cris escreveu em seu dirio:
      Na verdade, no estou querendo crescer depressa demais. Tem muita coisa acontecendo comigo, e s estou tentando equilibrar tudo. Acho que se eu estivesse desobedecendo, 
meu pai teria razo. Mas tenho tentado fazer tudo certinho. Bem, pelo menos na maioria das vezes.
      Acho que meu pai est certo ao dizer que eu nem sempre penso bem antes de tomar decises. Mas de nem imagina quantas decises certas tenho feito e em quantas 
situaes eu disse "no".
      Estou tentando descobrir o que Deus quer que eu faa. Acho que ele quer que eu me esforce por agir corretamente e diga "no" a tudo que for duvidoso ou parea 
no ser bom pra mim.
      No, no e no. Isso a  o meu treinamento dirio para aprender a dizer no.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Divertir, Divertir, Divertir!
      9
      A semana voou como um foguete. A me de Cris conseguiu um emprego no escritrio imobilirio do Sr. Taylor. David caiu da bicicleta e levou quatro pontos no 
queixo. O pai de Cris plantou uns arbustos e consertou a tela da porta.
      Embora todos os dias Cris procurasse Rick pelos corredores, nunca mais o viu. Mas na quinta  tarde, ela quase nem se lembrou dele. Ia para Palm Springs com 
as amigas, e as trs estavam radiantes.
      - Esto prontas, garotas? perguntou Bob, ao colocar uma mala no porta-malas de seu Mercedes conversvel. Procurou as chaves nos bolsos e disse:
      - Ah, Cris, eu trouxe umas cartas para voc. Aquela que lhe falei no telefone, semana passada, disse ele, entregando-lhe um envelope com a letra de Paula. 
E aqui tem outra que chegou ontem.
      Por um momento, Cris pensou, com esperana: Ser que  do Ted? Ser que ele finalmente me escreveu!
      Olhou o envelope para ver o remetente. Era da Trcia. A garota da praia, de quem Cris tentara tanto no gostar. Ela era muito simptica, mas na poca, Cris 
ficara tentando descobrir se ela gostava do Ted. Por que a Trcia estaria escrevendo?
      As trs garotas se acomodaram no confortvel banco de trs do carro. O perfume de Marta enchia o ar  sua volta. Estavam a caminho!
      Enquanto Jane e Brittany discutiam tipos diferentes de permanentes com Marta, Cris leu, em silncio, a carta de Paula. Ela escreveu com emoo, dizendo que 
sentia muita saudade de Cris e aguardava com ansiedade as prximas frias em junho, quando viria para a Califrnia visit-la. Disse que nunca encontraria outra amiga 
igual a Cris. Sua festa de aniversrio seria no sbado seguinte. Seria a primeira vez, desde o jardim de infncia, que Cris no estaria comemorando com ela mais 
um ano de vida.
      Cris olhou pela janela. Via a paisagem seca passando depressa e tentava conter as lgrimas.
      Queria que voc estivesse aqui, Paula. Queria que estivesse indo comigo a Palm Springs. Tambm sinto saudades.
      Cris entendeu que seu relacionamento havia mudado. Ainda eram amigas, e continuavam muito prximas, mesmo estando longe. Ainda faziam parte da vida uma da 
outra. Mas com certeza tinham passado para um outro nvel de amizade. O que doa  que Paula no entendia a promessa que Cris fizera nas ltimas frias. Ela no 
achava que para ter um relacionamento com Jesus era necessrio assumir um compromisso com ele. Eu tambm demorei um pouco pra entender, Paula. Vou continuar orando 
por voc, como Ted e Trcia oraram por mim.
      Ela guardou a carta de Paula na bolsa e leu rapidamente a de Trcia. Era pequena e doce, como ela.
      
      Querida Cris,
      Hoje li este versculo e lembrei-me de voc. Ento resolvi escrever-lhe e mand-lo junto:
      "O Senhor  quem vai adiante de ti; ele ser contigo, no te deixar, nem te desamparar; no temas, nem t e atemorizes" (Dt31.8).
      Espero que tudo esteja indo bem pra voc e que esteja fazendo muitas amizades em sua nova escola. Avise-nos quando estiver por aqui na praia de novo. Todos 
sentimos sua falta.
      Com carinho,
      Trcia.
      
      De todas as garotas que Cris conhecera na praia, nas frias passadas, Trcia era a mais amigvel. Tinha-se esforado ao extremo para ser amvel com Cris.
      Queria ser parecida com a Trcia, pensou Cris. Ela pensa nos amigos e nas suas necessidades, mais do que em si mesma.
      - Vocs se importam de escutar uma de minhas msicas favoritas, da "idade da pedra"? perguntou Bob.
      Antes que respondessem, ele colocou uma fita no toca-fitas do carro e aumentou o volume.
      - Puxa vida, Robert! repreendeu Marta. Precisa ligar to alto?
      Jane e Brittany j estavam cantarolando junto com a msica. Bob abaixou um pouco o volume e colocou os culos de sol em cima da cabea, e, fitando firmemente 
a mulher, disse:
      - Vamos l,  meu bem. Isso no lhe traz boas recordaes? Ela sorriu e estendeu a mo para ele, acariciando seu brao.
      - Voc no mudou nada, Bobby.
      Marta comeou a cantarolar com eles: "E vamos nos divertir, divertir, divertir!..."
      Jane conhecia a letra de todas as msicas.
      - Meus irmos tm esta fita. Adoro ela! exclamou.
      Bob estava a todo vapor, batucando animado no volante e balanando a cabea.
      - Voc acha que seu cabelo vai-se atrapalhar se eu baixar o teto? perguntou para Marta.
      - Isso a! Vamos abaixar! disse Jane com entusiasmo.
      - No, querido. No trouxe leno de cabea. Prefiro que deixe como est. O ar condicionado  to refrescante...
      - O que  que vamos fazer  noite? perguntou Cris, no momento em que a fita voltava automaticamente.
      - Vamos direto para o hotel, nos trocamos e depois samos para jantar, anunciou Marta.
      Tia Marta, voc seria uma excelente diretora de programao num cruzeiro de luxo, pensou a sobrinha.
      - Vocs gostam de italiano ou chins? perguntou Bob, desligando o som.
      - O qu? perguntou Jane. Homens ou restaurantes?
      - Qualquer dos dois, replicou Bob rindo.
      - Ambos! respondeu Jane com uma risada.
      - J percebi que sua amiga  das minhas, Cris, disse Bob, saindo da rodovia e entrando numa estrada longa, que parecia ir direto para uma cordilheira de montanhas. 
Agora o carro viajava na sombra. Tudo parecia diferente, numa tonalidade lils.
      - Quanto tempo ainda demora? perguntou Cris.
      - Mais alguns quilmetros. Quase d para ver o telefrico daqui.
      - Que  isso?
      - O telefrico de Palm Springs vai do cho at o cume do monte San Jacinto, ali. Ele tem quase trs mil metros de altura e, no inverno, fica coberto de neve.
      Bob inclinou-se para a frente, olhando para o monte.
      - Esto vendo ali?
      - Eu estou, disse Brittany.
      - Tem um caso interessante sobre essa montanha, disse Bob, com um ar maroto. H alguns anos, eu e meus colegas de golfe fomos l para fazermos uma caminhada. 
Era novembro e, quando pegamos o telefrico, o tempo estava nublado e, chegando em cima, estava congelando. Almoamos no restaurante de l e, quando amos sair para 
a caminhada, comeou a nevar. O engraado  que, no dia anterior, eu havia ficado queimado de sol, jogando golfe!
      - O que vocs acham de dar um passeio de telefrico, garotas? Voc poderia lev-las no domingo, no  Bob? sugeriu Marta.
      -  uma opo. Poderamos tambm fazer um passeio de balo.
      -  mesmo? perguntou Cris, com um gritinho de alegria.
      - Que maravilha! Sempre sonhei em andar de balo! disse Brittany.
      - Seria quente!.comentou Jane, Entendeu? Quente? Balo de ar quente?
      - Entendemos, Jane, disse Cris.  por isso que no estamos rindo.
      Que divertido! pensou Cris. Sempre quis andar de baio! Cantarolava baixinho. Vamos nos divertir, divertir, divertir...
      - Chegamos, disse Bob, ao passarem por uma rua cheia de lojas, restaurantes e edifcios de escritrios. Aqui  a Palm Canyon Drive.
      Cris no se impressionou. Depois de tudo que ouvira sobre Palm Springs, esperava um lugar luxuosssimo, uma cidade maravilhosa. As lojas e os prdios eram 
bonitos, mas nada de espetacular.
      Bob entrou no estacionamento do hotel, parando debaixo de um enorme prtico apoiado sobre colunas brancas. Um empregado do hotel abriu a porta do carro, e 
o vento quente do deserto envolveu-os. O atendente estendeu a mo para cada uma das moas, ajudando-as a descer. Cris gostava muita de se sentir paparicada assim.
      Outro funcionrio uniformizado colocou todas as malas num carrinho acarpetado, e seguiu-os at o balco de reservas.
      - Olhe a fonte! disse Jane, suspirando ao entrar no saguo espaoso.
      Cris achou muito bonita a decorao em adobe, tpica da regio. Tinha um aspecto de deserto. O assoalho tinha um tom terroso, meio rosado, e pendurados nas 
paredes de cermica branca viam-se muitos tapetes indgenas. Nos corredores havia enormes vasos de barro com grandes cactos.
      - Olhem! disse Jane, apertando um dos espinhos de um cacto.
      Era artificial. O espinho de ponta aguda que parecia to perigoso, dobrou-se ao toque de Jane, como se fosse um macarro bem cozido.
      - Espero que gostem do quarto, disse o atendente, abrindo a porta da sute das garotas.
      Elas correram os olhos pelo cmodo espaoso. Tinha uma porta de vidro que dava para o ptio e a piscina. As colchas e cortinas tinham motivos indgenas em 
cores mais suaves. As paredes eram enfeitadas com diversos quadros de cactos floridos e flores do deserto. Cris ainda preferia o estilo antiquado, vitoriano, do 
hotel St. Francis, em San Francisco.
      - Isso a  quentssimo! exclamou Jane.
      - Ento talvez a senhorita queira que eu ajuste o termostato ali disse o atendente com ar srio, apontando para a parede perto do banheiro.
      As trs garotas olharam umas para as outras e caram na risada. Bob deu uma gorjeta ao atendente, e disse:
      - Elas so meu f-clube. Eu as levo em todo lugar. Me fazem sentir jovem.
      - Agora acomodem-se, garotas, determinou Marta. Nossa sute  a do lado. Que tal sairmos para jantar daqui a meia hora?
      - Tudo bem. 
      - Pra mim est timo.
      As trs desarrumaram rapidamente a mala, tagarelando e rindo enquanto Jane examinava o quarto. Mexeu em cada interruptor de luz, na torneira, e tambm numa 
cestinha cheia de amostras de sabonetes, xampu, creme rinse e touca de banho. 
      - Que tal? disse Jane, saindo do banheiro com uma touca na cabea. Devo us-la no jantar, caso chova?
      - Elegantssima! disse Cris. Combina muito bem com seu tnis.
      Todas riram, e Brittany perguntou o que elas usariam para o jantar.
      No trouxe nenhum vestido, reclamou Cris. Nem me lembrei disso quando arrumei a mala, ontem  noite.
      - Eu trouxe alguns, disse Brittany. Voc pode usar um dos meus.
      Cris escolheu um de malha azul-turquesa e entrou no banheiro para experiment-lo. No passava nos quadris. Abrindo a porta do banheiro, ela perguntou:
      - Que tamanho  essa coisa?
      - Trinta e seis. Por qu? perguntou Brittany. Que tamanho voc usa?
      - Pode ter certeza de que no e trinta e seis, disse Cris, devolvendo o vestido para a amiga.
      - Aqui, disse Jane. Eu trouxe um vestido e uma saia jeans. Quer usar um dos dois?
      - Joga a saia aqui. Eu tenho uma blusa vermelha que posso usar com ela. Cris vestiu a saia sem dificuldade.
      Trinta e seis. Ningum veste nmero trinta e  seis. Talvez trinta e oito, mas trinta e seis, nunca.
      As meninas arrumaram o cabelo e se maquiaram depressa.
      - Voc deveria usar mais delineador, disse Brittany a Cris. Experimente este, disse, entregando-lhe o seu.  "orqudea selvagem". Vai ficar bem em voc.
      - Roxo?! exclamou Cris. Sei no...
      - Pode deixar que eu passo, ofereceu Jane.
      Ento Jane e Brittany comearam a maquiar Cris.
      Quando as duas se afastaram, e Cris viu sua imagem no espelho, sua primeira reao foi "Credo!" Mas no queria ferir os sentimentos das amigas, que se admiravam 
de sua produo. Os olhos pareciam apertados com o rmel e delineador pesados. Sentia-se ridcula, como uma garotinha que descobre o batom da me e suja o rosto 
todo com ele.
      Algum bateu  porta, e no deu tempo de mudar mais nada. Bob, vestido de casaco esporte caqui e cala azul-marinho, assoviou.
      - Puxa vida! Vocs esto lindas. Mas  melhor sairmos daqui. Parece que uma bomba de perfume acaba de explodir no quarto!
      Elas riram e saram para encontrar-se com Marta no corredor. Cris tinha de admitir que sua tia era uma mulher de classe. Sempre estava bem vestida. Hoje usava 
um vestido rosa que rebrilhava. O colar e os brincos de brilhantes lembravam estrelas. Parecia pronta para um baile.
      - Cris, disse Marta, olhando sua maquiagem, a saia curta e as sandlias. Voc no trouxe o vestido azul, querida? Sabe, aquele que eu comprei pra voc nas 
frias, na Macy's.
      - No lembrei.
      Depois do comentrio feito pelo pai no domingo passado, ela o enfiara no fundo do guarda-roupa, resolvida a us-lo quando completasse dezoito anos.
      - Essa  a nica saia que voc trouxe? insistiu Marta.
      - Na verdade ela  de Jane. Arrumei a mala com tanta pressa que me esqueci de colocar alguma roupa mais fina.
      - Bem, eu J tinha pensado em fazer umas compras amanh Agora j sabemos qual a primeira coisa que vamos procurar.
      Cris encolheu-se no banco de trs, enquanto as outras duas moas, de vestidos frescos, com cores alegres, conversavam animadas. Como ela detestava quando tia 
Marta a fazia sentir-se mal assim! Como se fosse uma velha boneca de pano, usada. No vero passado j tinha sido ruim; agora, na frente das amigas, era pior ainda. 
      Quando no havia ningum olhando, Cris lambeu o batom rosa claro dos lbios e passou o dedo sob os olhos, tirando o mximo que pde do "orqudea selvagem".
      Na penumbra do restaurante italiano, passaram os olhos pelo cardpio, perguntando a Bob o que era cada prato. Sob recomendao do tio, Cris pediu fettuccine. 
Parecia to extico! Mas quando o garom colocou o prato  sua frente, ela pensou: Isso aqui  s uma macarronada branca! O gosto tambm era exatamente disso.
      Um homem de fraque, tocando violino, aproximou-se da mesa deles. Bob pediu-lhe que tocasse uma cano italiana, cujo ttulo Cris nunca tinha ouvido.
      O msico sorriu e atendeu. Colocando o violino sob o queixo, comeou a tocar. Devagarinho no comeo, depois com vigor, puxava o arco para trs e para frente, 
colocando todo o corao na msica. Cris percebeu que estava prendendo a respirao nas ltimas notas altas, como se estivesse espremendo-as de seus prprios pulmes, 
junto com o msico. Ele terminou to dramaticamente quanto havia comeado. Colocou o violino debaixo do brao e inclinou-se para a frente em agradecimento.
      - Bravo! exclamou Marta.
      - Molto bello! cumprimentou Bob, dando ao artista, ao que parecia, uma nota de dez dlares.
      O homem sorriu, acenou e, tomando a mo de Marta, beijou-a galantemente. Foi at Jane e fez o mesmo. Ela deu uma risadinha e olhou para Cris, que seria a prxima. 
Cris ficou meio sem jeito, mas ao mesmo tempo achou muito empolgante. Virou-se ento para ver como Brittany reagiria ao gesto gracioso, mas a amiga havia sumido.
      - Provavelmente foi ao banheiro, disse Jane.
      Cris ficou revirando o fettuccine no prato durante uns dez minutos, e acabou comendo outro pozinho de alho, sentindo-se ento satisfeita.
      - Ser que sua amiga est bem? perguntou Marta.
      - Vou l dar uma olhada, disse Cris.
      - Eu vou junto, disse Jane
      Quando saam da mesa, Jane disse baixinho:
      - Provavelmente est vomitando. Ela est fazendo um regime esquisito. Acho que j est magra demais.
      - E verdade, concordou Cris. Ela me contou que est tomando o comprimido de emagrecimento da me.
      De repente Cris lembrou-se do vidro de remdio controlado que Brittany tinha-lhe dado. Ainda estavam em sua bolsa, l na mesa. Tenho de jogar aquilo fora.
      Encontraram Brittany perto da pia, penteando o cabelo.
      - Acho que vou experimentar outra marca de fixador, disse. A que estou usando agora resseca demais o meu cabelo.
      Cris notou um tufo de cabelo na pia. Brittany borrifou perfume nos punhos, e perguntou:
      - Todo mundo j terminou?
      - Quase. Viemos saber de voc. Est tudo bem?
      - Claro, respondeu Brittany, com uma risadinha nervosa. Estou esperando a sobremesa!
      - Brittany, disse Jane, em tom de repreenso maternal. Voc vomitou?
      Brittany abaixou a voz e ergueu as sobrancelhas com ar inocente.
      - Claro que no! Por que est perguntando isso?
      - Brittany, diga a verdade. Voc j parou com aquele regime ou ainda est tomando laxantes e comprimidos?
      - No, no estou mais fazendo regime. Verdade! S disse que queria sobremesa hoje.
      Cris no sabia se ela estava mentindo ou no. Jane parecia acreditar.
      -  melhor voltarmos  mesa. Eles provavelmente j esto querendo ir embora.
      Marta sugeriu que sassem para olhar as vitrines, em vez de ir direto para o hotel. Uma brisa morna do deserto os envolvia enquanto passavam por belssimas 
vitrines iluminadas. Jane fazia toda espcie de piada sobre as coisas expostas; peas prticas, como minissaias de couro e uma mquina de ao inoxidvel de fazer 
macarro.
      Todos ainda estavam rindo quando voltaram ao hotel Cris tirou da bolsa a chave do quarto e agradeceu ao tio pelo jantar agradvel e a noite divertida.
      _  um prazer, senhoritas, disse ele. Tenho uma partida de golfe s oito da manh, e provavelmente tomarei um caf com donut no salo de refeies. Talvez 
vocs queiram dormir at mais tarde e tomar o desjejum ao lado da piscina. Eles tm um bufe de brunch*, no tm, Marta?
      * Refeio farta servida entre o horrio do caf da manh e o almoo, que substitui as duas refeies. (N. Da T.)
      - Acho que  s aos sbados e domingos.
      - Bem, se vocs ficarem com fome a qualquer hora telefonem para o servio de quarto. A gente se encontra amanh. Boa noite
      - Bons sonhos! acrescentou Marta. As garotas vestiram as camisolas e ligaram a televiso. No tinha nada de bom. S noticirio.
      - J sei, disse Jane. Vamos nadar!
      - Parece que no vai dar, respondeu Brittany. Acho que a piscina fecha as dez.
      - Talvez se ns nadarmos bem quietinhas... disse Jane com uma risada.
      -  isso a! continuou Cris. Trs garotas mergulhando na piscina, vai ser um silncio total.
      - Ento vamos falar de garotos, sugeriu Jane, recostando-se na cabeceira da cama.
      - Brittany, vi voc conversando com Kurt no almoo outro dia. Como , vai voltar com ele?
      - Est brincando?! Eu estava falando pra ele sumir. Ele me d nojo.
      - E voc? perguntou Brittany a Jane. O Greg te deu ateno estes dias?
      - No muita. Conversou comigo umas duas vezes. Mas ele s flerta comigo quando no tem garotas mais velhas por perto. Gosto dele, mas ele me assusta um pouco, 
entende?
      - No, disse Cris.
      -  como se ele estivesse sempre um passo  minha frente. Olho pra ele e no consigo decifrar o que est pensando.  misterioso e inatingvel. Gosto disso, 
mas fico meio cismada.
      - E voc, Cris, como esto as coisas com o Rick? Perguntou Jane.
      Cris no respondeu. Olhou para Brittany para ver sua reao. Parecia imperturbvel como sempre. Cris resolveu ento confrontar a mentira da amiga.
      - Brittany, por que voc me disse que o Rick estava interessado em me conhecer, e que a Jane  que sabia dos detalhes?
      - , entrou Jane. Eu queria saber onde eu teria conseguido todas essas informaes detalhadas que supostamente passei pra voc. Rick nunca me perguntou sobre 
a festa da camisola nem sobre a Cris.
      Brittany permaneceu imvel, sentada na cama com as pernas cruzadas. A expresso de seu rosto no mudou, mas os olhos pareciam girar na "Roda da Fortuna", tentando 
encontrar uma resposta adequada. Ela foi pega. No podia dizer nada.
      Saltou da cama.
      - Acho que deixei meu anelador de cabelo ligado! Correu para o banheiro e fechou a porta.
      - s vezes acho que ela  um caso srio, disse Jane.
      - Sei l, defendeu Cris. Ela tem seus problemas. Os pais dela se separaram, e o pai nunca est em casa. Tenho pena dela. Acho que devemos tentar ajud-la.
      - , voc est certa. Eu devia tentar ser mais compreensiva, disse Jane. Mas por que inventou toda essa histria sobre o Rick?
      - No sei, respondeu Cris, abanando a cabea. Mas Jane, voc disse que o Rick era namorado da Wendy.  verdade?
      - No sei. Pensei que fosse. Parece que ele  o tipo de cara que no quer se comprometer com uma s. Ele tem um bom papo, sabe? Consegue qualquer garota que 
quiser. Acho que ningum entende o que se passa na cabea dele. E o cara que voc conheceu nas frias?
      - Ted?
      - O que foi feito dele?
      - No tenho a mnima idia. J lhe mandei umas cinco cartas, mas o engraadinho no respondeu nenhuma. Mesmo assim no creio que esteja tudo acabado. Tenho 
esperana de encontr-lo novamente.
      - Ao que parecia, ele era o cara dos sonhos de toda garota. Cris olhou o quadro de flores selvagens na parede e disse:
      - E .  nico no gnero. Nunca me esquecerei dele. Cris sentiu os olhos se encherem de lgrimas. Piscou, e as flores do quadro pareciam um borro de cores 
que escorriam juntas.
      - No h nada demais em gostar de dois caras ao mesmo tempo, Cris. Ou mesmo de uma poro deles, falou Jane. Cris limpou as lgrimas.
      - , mas seria bom se pelo menos um deles gostasse da gente!
      - Falou e disse, Cris, falou e disse! Agora, se o Greg me chamasse pra sair e o Rick tambm a convidasse, ns poderamos sair os quatro juntos.
      -  isso a!
      - Como, por exemplo, no jogo do prximo fim de semana, continuou Jane, fantasiando. No seria divertido?
      A porta do banheiro abriu-se, e Brittany saiu, tranquila e recomposta.
      - Eu estou com fome, e vocs? disse Brittany, abrindo o cardpio do servio de quarto e lendo a lista para as amigas.
      Jane e Cris trocaram olhares que diziam: "Vamos ser bastante compreensivas e amigas".
      - Sundae com calda de chocolate quente: $ 7,50! reclamou Brittany. E olhe aqui: refrigerantes: $ 3,50. Que roubalheira!
      - Acho que no conseguiria encomendar nada em s conscincia, sabendo que seu tio teria de pagar, confessou Jane.
      - Ele no se importa, disse Cris. Dinheiro pra ele no  problema, como  pra minha famlia.
      - Ei, vocs querem fazer uma loucura? perguntou Jane.
      - O qu, por exemplo?
      - Sei l. Correr pra cima e pra baixo pelo corredor, ou algo assim.
      - Acho que vi uma mquina de refrigerantes e uma de chocolates no final do corredor, falou Brittany. Vamos comprar um chocolate e um refrigerante. Vai ser 
mais barato do que encomendar do servio de quarto.
      - No sei se deveramos, hesitou Cris.
      - Vamos l! Vai ser divertido, disse Jane.
      - E a gente vai assim, de camisola? indagou Brittany.
      - Eu no! Vou colocar minha cala jeans. As outras fizeram o mesmo que Cris, vestindo-se rapidamente, de qualquer jeito.
      - Vou pegar a chave e umas moedas, disse Cris.
      - Espera a! exclamou Jane, correndo ao banheiro. Saiu de l com a touca na cabea e uma toalha de banho enrolada por fora da roupa. Agora estou pronta!
      Brittany e Cris caram na risada. Jane abriu a porta e ps a mo sobre as sobrancelhas, como um espio indgena, olhando para um lado e para o outro do corredor.
      - Tudo bem, aventureiras, disse em voz grave. O caminho est livre.
      Segurando as risadas, as meninas saram juntinhas, caminhando com cuidado pelo corredor. Chegaram  mquina de refrigerantes sem que ningum as visse, e juntaram 
rapidamente suas moedas. Tinham o suficiente para um chocolate para cada uma e um refrigerante, que resolveram dividir quando voltassem para o quarto.
      A mquina fez um barulho ao deixar a lata cair. Jane apertou o dedo indicador nos lbios e fez "Shhhh" para a mquina.
      As outras duas se aproximaram dela, dando risadinhas. Ento as trs olharam pelo corredor. P ante p, exagerando as passadas, Jane conduziu-as de volta ao 
quarto. De repente, ouviram vozes atrs delas e, ao virarem, viram um jovem casal descer do elevador e andar em direo a elas.
      - Depressa, meninas! comandou Jane. Andando bem juntinhas, as garotas foram depressa para o quarto. Cris pegou a chave do bolso. Estavam quase  porta de Bob 
e Marta, quando Jane exclamou:
      - Nossa!
      Cris correu e inclinou-se para enfiar a chave na porta, enquanto as outras duas a empurravam para poderem entrar tambm. Rapidamente, bateram a porta e comearam 
a rir. Cris apontou para Jane, e perguntou:
      - E a sua toalha? O que aconteceu?
      - Perdi na frente da porta do quarto de seus tios! Por isso me apavorei!
      - Temos de peg-la, disse Cris. No podemos deix-la no corredor!
      Ficaram discutindo durante quase um minuto sobre quem iria pegar a toalha. Brittany levantou as mos para o ar e disse:
      - T bom, suas medrosas! Eu pego.
      Ento abriram a porta devagar. Olharam para a esquerda para a direita e, em seguida, para o cho. Algum j havia colocado a toalha, bem dobradinha, em frente 
 porta da sute delas. Ser que foi o casal que estava atrs delas? Ou foi o tio Bob?
      - S posso dizer uma coisa sobre esse hotel, disse Jane, pegando a toalha e fechando depressa a porta. As arrumadeiras aqui so incrveis!
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      

Tomar Decises
10
      
      Na manh seguinte, Brittany foi a primeira a levantar-se, cheia de energia.
      - Acordem, suas preguiosas! Quem .topa uma corrida? 
       Jane jogou o travesseiro nela.
      - V embora! No  possvel que j amanheceu!
      - So quase oito e meia, cantarolou Brittany. O dia est passando enquanto vocs duas dormem.
      - Me acorde quando for meio-dia, disse Cris, puxando as cobertas sobre a cabea.
      - Eu acordo vocs quando voltar, suas dorminhocas!
      Cris resmungou e voltou a dormir. Acordou assustada quando o telefone tocou. Era sua tia Marta, dizendo para irem encontrar-se com ela para o caf da manh, 
na lanchonete Sundance, em meia hora.
      Brittany voltou da corrida, suada e sem flego, e as trs se aprontaram rapidamente.
      - Ah, s corri em volta do hotel. Estava perfeitamente segura, disse Brittany, aplicando rmel com mo tremula.
      - Vamos l, minha gente! gritou Jane da porta. Sua tia provavelmente j est esperando.
      - O qu? Sem touca de banho hoje? brincou Cris ao passar por Jane.
      As trs garotas foram depressa para o elevador.
      Marta j estava esperando  entrada da lanchonete. Ao lado dela estava o casal que elas haviam visto na noite anterior. As trs seguraram o riso e ficaram 
cabisbaixas.
      Logo que sentaram, Marta exps os planos do dia. Passariam um tempo na piscina descansando e depois sairiam para fazer compras. O jantar seria s seis e meia, 
no restaurante mexicano favorito do Bob.
      - Isso  que  vida! exclamou Jane para Cris, pouco depois,  beira da piscina. Deitadas ao sol nas espreguiadeiras, uma garonete servia-lhes ch gelado.
      - Nunca estive num lugar desses antes, disse Jane. Adorei!
      - Vocs no vo entrar? gritou Brittany, segurando-se na beira da piscina e jogando um pouco d'gua nelas.
      - Eu vou! exclamou Cris. Vamos, Jane?
      As duas entraram devagar, no lado mais raso, e nadaram com Brittany. Marta,  sombra de um guarda-sol, apenas olhava.
      - Onde ela arranja tanta energia? perguntou Jane, depois de dar algumas braadas e observar Brittany que continuava nadando.
      - Lembra? No falei que ela est tomando aqueles comprimidos pra emagrecer? disse Cris. Ah no, murmurou em seguida consigo mesma. Por que s lembro de jogar 
fora aquele vidro de remdio controlado quando minha bolsa no est comigo?
      Brittany saiu da piscina pelo lado fundo.
      - Vocs se importam se eu entrar primeiro e tomar um banho?
      - Pode ir. Ns vamos daqui a pouco.
      Cris jogou-lhe a chave do quarto. Marta ficou observando o corpo esqueltico de Brittany, enquanto ela ia saindo, de biquini. Depois que ela foi embora, Marta 
falou sem rodeios:
      - Acho que sua amiga est magra demais. Nunca vi uma adolescente com os ossos do quadril to salientes quanto ela. No me parece saudvel. E o traseiro!? Ela 
quase no tem nada para segurar o maio!
      
- Ns j percebemos, disse Jane num sussurro, enxugando-se com a toalha. Estamos achando que ela precisa de ajuda. Tem uns problemas estranhos com comida.
      - J li sobre esse problema que algumas garotas tm, disse Marta, com seu jeito direto. Ela precisa de orientao profissional para superar isso. Essas desordens 
alimentares so muito comuns e perigosas. Graas a Deus a Cris no tem esse tipo de problema! Voc sempre teve um bom apetite, no , minha querida?
      Cris no sabia se o comentrio era uma crtica ou um elogio.
      - Bem, disse Jane, eu ficaria muito chateada se algo de mal acontecesse com ela, como, por exemplo, se ela ficasse doente. O que a gente deve fazer?
      - Deixe comigo. Eu resolvo isso, declarou Marta, apressando as meninas para irem se aprontar para a tarde de compras.
      Cris ficou preocupada com o que a tia iria fazer.  verdade que tinha boas intenes, mas j havia criado dificuldade para Cris diversas vezes. Como ser que 
ela pretendia ajudar a Brittany?
      Uns vinte minutos mais tarde, Marta dirigia pelas ruas de Palm Springs, como se estivesse em sua prpria cidade. Levou as garotas a vrias pequenas butiques, 
onde foram muito bem  atendidas.
      Marta sugeriu a Cris que comprasse um vestido preto de malha, com cintura baixa e vrias camadas de babados na barra. Brittany disse que havia visto o mesmo 
modelo na revista Seventeen, e Jane disse que ele dava a Cris a aparncia de uma moa de dezessete anos.
      timo! A ltima coisa de que preciso  um vestido que me envelhea! O que  que meu pai vai dizer!
      Entretanto Marta insistiu e, no final, acabaram saindo da butique com o vestido, meias de nilon que combinavam e grandes brincos pretos com dourado. Cris 
e Jane sentaram-se atrs no carro, e Jane cochichou:
      - Voc pode usar esse vestido quando sairmos com Rick e Greg!
      Cris deu uma risadinha forada. Quando  que vou comear a bater o p e insistir no que realmente penso e sinto? Quando  que vou parar de deixar que todo 
mundo tome decises por mim? Nem gostei do modelo!
      Em seguida foram ao shopping Desert Fashion Plaza. Assim que entraram na loja Saks, Cris percebeu que Marta iria gastar muito dinheiro ali. Sua tia parecia 
uma ave, que de repente chega ao seu lugar de origem. Pela maneira como desfilava entre as roupas, Cris podia imagin-la tirando os cartes de crdito e abanando-os 
como um rabo de pavo.
      Desta vez vou decidir por mim mesma! pensou Cris.
      As trs moas entraram no vestirio luxuoso, acompanhadas da atendente, que vinha com os braos carregados de vestidos para elas provarem. Cris foi a primeira 
a colocar a cabeapara fora do provador.        
      - Venha aqui querida.  a blusa "Liz Claiborne"? No da para ver o conjunto todo, insistia Marta. Ah, sim! exclamou ela quando Cris saiu. Gosto muito desse 
rosa-choque em voc.  bem marcante.
      Cris olhou sua imagem no espelho. Alguns meses atrs, teria engolido cada palavra da tia, junto com a elegncia e a empolgao que acompanhavam um passeio 
daqueles.
      Mas dessa vez forou-se a tirar suas prprias concluses sobre a roupa. No gostou. No, no e no.
      - No sei, disse com cautela. No sou um tipo de pessoa ousada. Acho que prefiro a cor pssego.
      A tia parou um instante, batendo o indicador de leve na boca.
      - , acho que tem razo. Fica muito bem de pssego. Especialmente numa tonalidade mais forte, salmo.
      - Gosto desta cor aqui, disse Cris, mostrando uma camisa pssego-claro, em tom pastel. O que acha?
      Marta piscou como se estivesse sentindo-se ofendida, mas depois abrandou a expresso e, com uma risadinha, disse:
      - No importa o que acho. Voc decidiu por si mesma. E isso  muito bom, Cristina. Voc comparou com suas amostras de cores?
      Cris entrou novamente no vestirio, abriu a bolsa e vasculhou-a procurando o jogo das amostras de cores que recebera de uma especialista, nas frias, com um 
guia das cores que melhor combinavam com seu tipo. A especialista havia dito para Cris que ela nunca deveria usar uma cor que no estivesse naquele jogo de amostras. 
Se conseguisse achar na baguna de sua bolsa! Achou. E que alvio! Pssego-pastel combinava perfeitamente.
      - Absolutamente adorvel!
      Cris ouviu a tia falando com suas amigas fora do vestirio. No momento em que saia da cabine, ouviu-a dizer ainda:
      - Escutem aqui, quero comprar um conjunto novo para cada uma. Escolham o que quiserem.  um presente meu.
      - Mesmo?! disse Jane, com um gritinho surpreso de satisfao. Isso  muita bondade sua! Mal posso acreditar!
      - No precisa, replicou Brittany. Meu pai me deu o carto de crdito dele, caso eu quisesse comprar alguma coisa.
      - Mas deixe-me comprar para voc, querida. Quero fazer isso. Voc gostou desse conjunto que est vestindo?
      - Bastante. Estava pensando em lev-lo, respondeu Brittany.
      - Ento est resolvido. Eu compro para voc, declarou Marta. Fica bem em voc, embora o short esteja meio folgado atrs, no acha?
      Oh, no! pensou Cris. Agora vem o mtodo sutil de minha tia lidar com o problema de peso da Brittany!
      -  o menor tamanho que eles tm, respondeu Brittany. Gosto dele soltinho assim. Me faz parecer mais magra.
      - Querida, voc j est magra demais! Quanto est pesando?
      Brittany recuou.
      - No sei. No tenho-me pesado ultimamente.
      - Na minha opinio, meu bem, voc deveria engordar uns quilinhos. Comece a comer um pouco de po com manteiga, que  bom para a sade. De repente, Marta virou-se 
para Jane. 
      - Com seu cabelo preto, querida, voc no deve usar uma tonalidade to escura perto do rosto. Aqui, experimente esta blusa verde-limo, Jane.  uma cor maravilhosa, 
no acha?
      O resto da tarde e  noite, Marta continuou no controle de tudo. Ela insistiu que Cris usasse seu novo vestido preto e, embora as outras garotas e Bob fizessem 
todo tipo de elogio, Cris no se sentia autntica. Sua impresso era que Marta estava tentando transform-la em outra pessoa, e no sabia como essa "outra pessoa" 
deveria falar, sentar ou sorrir.
      Bob conhecia pessoalmente os donos do restaurante mexicano onde foram jantar, e perguntou ao garom se era "Joaqun" quem estava no comando de tudo aquela 
noite. Instantes depois um homem alto e bonito, de cabelo preto, veio  mesa, e Bob levantou-se para cumpriment-lo calorosamente.
      - Como vai, Roberto? perguntou. E Marta, cada vez que a vejo est mais linda!
      Marta estendeu a mo, que Joaqun beijou, olhando em seguida para as trs garotas.
      - E quem temos aqui? Voc tem escondido o ouro, Roberto!
      - Joaqun, quero que conhea minha nica sobrinha, Cristina, e suas amigas Jane e Brittany.  Joaqun apertou a mo de Brittany.
      - Lindo cabelo, disse. Como o sol dourado sobre a areia do deserto.
      Cumprimentando Jane, disse:
      - Voc tem um sorriso que ilumina a noite mais escura.
      - Cristina, Cristina, disse, enrolando o "r" com teatralidade. Voc tem olhos que matam. Nunca vi olhos como os seus. Basta olhar uma vez para esses "olhos 
que matam" para ser cativado para sempre.
      Cris abaixou a cabea e ficou com o rosto vermelhinho.
      - Quanta inocncia, disse Joaqun a Bob. Isso  lindo numa mulher.
      Mudando de tom e falando com todos  mesa, disse:
      - Hoje, meus amigos, vocs tm que experimentar as enchiladas de siri. So o mximo.
      - O que vocs acham? perguntou Bob.
      - Eu s quero meia poro de tostada de galinha comguaca-mole, disse Marta. Brittany, no faa cerimnia, sim?! Pea o que quiser, acrescentou.
      As trs garotas e Bob pediram asenchiladas de siri. Cris achou-as deliciosas. Para um prato mexicano, at que tinham um sabor suave, e vinham cobertas de queijo. 
Depois do jantar, Cris sentia-se to farta, que achava que nem ia conseguir ficar de p.
      O garom veio tirar os pratos, e disse:
      - Seu jantar hoje  cortesia da casa, senhor. Aceitam mais alguma coisa?
      - Meninas? perguntou Bob.
      - Eu no conseguiria comer mais nada! disse Jane. As outras concordaram.
      - Estamos satisfeitos. D ao Joaqun meus agradecimentos, disse Bob, entregando ao garom uma nota de cinquenta dlares.
      - Obrigado, senhor, disse o garom, com uma expresso de surpresa estampada no olhar.
      - Robert, repreendeu Marta em voz baixa. Voc no acha que exagerou na gorjeta?
      - Era a menor nota que eu tinha. Alm do mais, o jantar foi de graa, disse ele, virando-se para Cris e suas amigas, que estavam com os olhos arregalados.
      - E agora, meninas, que tal um cinema?
      - Desde que no tenhamos de comer pipoca! disse Jane. Estou estourando!
      - E voc, Brittany, perguntou Marta, sem rodeios. Comeu o suficiente?
      - Sim, obrigada.
      Para Cris, o som da voz de Brittany parecia de um rob a responder as perguntas bvias de Marta. Ficou-se questionando se sua voz soava assim, fria e sem educao, 
quando respondia a tia em ocasies em que ela a perturbava.
      - Ento, vamos, Robert!
      Chegando ao cinema, descobriram que os ingressos estavam todos vendidos, e a sesso seguinte era s dez e meia. Depois de muito conversar, resolveram voltar 
para o hotel e dormir. Todos se encontrariam no saguo para um brunch, pela manh, se at l tivessem vontade de comer.
      As garotas ficaram descansando no quarto, assistindo  televiso, sentindo-se empanturradas e preguiosas. Brittany foi ao banheiro, e Jane correu para abaixar 
o volume da TV.
      - Escuta, sussurrou para Cris.
      O barulho era fraco, mas parecia que Brittany estava vomitando.
      - Ela est fazendo aquilo de novo! cochichou.
      - Pra dizer a verdade, estou com vontade de fazer o mesmo, depois do tanto que comi! disse Cris.
      - , mas hoje  tarde ela j tinha vomitado, quando voltamos da piscina. Achou que eu no tinha escutado, mas eu escutei.
      - Ela me disse que no estava mais fazendo isso, disse Cris.
      - Acho que temos de ajud-la. Isso no  normal, Cris. E depois de tudo que sua tia falou l na piscina, estou preocupada mesmo.
      - O que podemos fazer? argumentou Cris. Cada vez que tento conversar com Brittany, ela mente. No sei o que fazer.
      - Vamos tentar falar com ela sobre o assunto, sugeriu Jane.
      Naquele momento, a porta do banheiro se abriu, e Brittany voltou ao quarto. Percebeu que as meninas tinham tirado os olhos da televiso e estavam olhando para 
ela.
      - O que foi? perguntou. Tem alguma coisa errada? Cris no sabia o que dizer. Olhou para Jane. Ela era corajosa. Saberia o que dizer.
      - Brit, o negcio  o seguinte. Sabemos que voc tem tentado emagrecer e tudo, e j emagreceu bastante. E muito rapidamente.
      Brittany ficou parada, o rosto totalmente sem expresso.
      - E... bem, continuou Jane, estamos preocupadas porque sabemos que tem vomitado muito e isso no  bom pra voc. O rosto de Brittany se abrandou.
      -  que passei o dia todo com uma dor de estmago terrvel, disse. No quis dizer nada pra no estragar o passeio, as compras e tudo mais. E depois, no jantar, 
aquelas cnchiladas estavam deliciosas, mas me fizeram mal!
      - Ns podemos fazer alguma coisa pra te ajudar? perguntou Jane, com o rosto refletindo uma sincera preocupao. Quer que a Cris veja com o tio dela se ele 
tem algum remdio para o estmago?
      Brittany estava sentada na beirada da cama e soltou um pequeno gemido.
      - Na verdade, replicou, estava pensando em ir at  farmcia pra comprar um Alka-Seltzer. Quando sa pra correr hoje de manh, passei por uma mais ou menos 
a uma quadra daqui.
      - Vou falar com meu tio pra levar voc, disse Cris, pegando o telefone. Qual o nmero do quarto deles?
      - No! Por favor, no, insistiu Brittany. No quero incomod-los.  provvel que j estejam dormindo. E depois de todas as coisas que sua tia me disse hoje, 
a ltima coisa que quero na vida  irrit-la. Eu mesma vou  farmcia.
      - No pode ir sozinha! protestou Jane.
      - J fui hoje de manh.
      - Era diferente. Era de dia. Malandros e criminosos no trabalham quando o sol est brilhando, afirmou Jane. Ns vamos com voc.
      - Acho que no deveramos, declarou Cris.
      -  s uma quadra daqui, explicou Brittany. Talvez mais perto.
      - Samos ontem do quarto e ningum ficou sabendo, retrucou Jane. Acho que a Brittany est certa. No devemos incomodar seus tios por uma coisa mnima como 
um Alka-Seltzer.
      - Sei no, meninas, insistiu Cris. No acho isso muito legal. No est certo.
      - Olha aqui, Cris, interveio Jane, passando um pente no cabelo negro, cheio de ondas. O final de semana est s na metade. A ltima coisa que queremos fazer 
 irritar sua tia, acordando-a e perturbando seu sono de beleza. Alm do mais, se fosse voc que estivesse passando mal, a Brittany iria  farmcia com voc. No 
iria, Brit?
      - Sem dvida. S vamos demorar uns cinco minutos. Eles nunca vo saber. Voc no precisa vir conosco, Cris.
      Cris odiava momentos como aquele! Nunca era capaz de tomar decises de ltima hora. Detestava ser a nica a discordar, mas sabia que as trs no deveriam sair 
do hotel sozinhas  noite.
      - Escuta, disse Jane baixinho para Cris, enquanto Brittany procurava os sapatos no armrio.  assim que ns podemos ajudar a Brittany. Foi voc quem disse 
que devemos ser amigas dela e ajud-la.
      - Eu sei, mas...
      - A farmcia  logo ali. Talvez at seja anexa ao hotel. Agora devemos pensar  na Brittany, no em ns mesmas!
      Jane calou as sandlias e ficou ao lado da porta, junto a Brittany.
      - Como ? Voc vem ou no?
      - Est bem, disse Cris de uma vez, saltando da cama. Vou s calar o sapato. E minha bolsa, onde est? No quero ficar trancada l fora. Tem certeza de que 
 s uma quadra?
      - Talvez uma quadra e meia. No  longe. Confie em mim! disse Brittany, abrindo a porta.
      Ela e Jane imitaram as gracinhas da noite anterior, olhando para um lado e para o outro do corredor antes de sair.
      - Vamos l! sussurraram as duas para Cris. O caminho est livre!
      Relutantemente, ela saiu para o corredor, e a porta trancou-se automaticamente atrs dela.
      
      
      
      
      
      
      

Corrida No Meio Da Noite
11
      
      
      - Quanto ainda falta, Brittany? J andamos dois quarteires?! Indagou Cris em pnico, com voz assustada.
      -  logo ali, descendo a rua, disse Brittany, calma. Voc me surpreende, Cris. Depois que "empapelamos" a casa do Rick, pensei que voc fosse profissional 
em aventuras noturnas em ruas escuras!
      Cris cerrou os dentes e deu uma olhadinha para Jane. Ser que estava sendo infantil demais? O jeito geralmente despreocupado de Jane havia desaparecido. Agora 
a expresso de seu rosto demonstrava raiva.
      - Pois eu acho que  longe demais, replicou Jane. Vamos voltar e pedir ao tio de Cris que nos leve de carro.
      - Se vocs querem voltar, tudo bem, falou Brittany. Mas eu vou  farmcia. Olhem.  logo ali.
      Brittany apressou o passo e as outras a seguiram meio abobadas.
      Dentro da loja bem iluminada, Cris sentiu-se um pouquinho mais segura. Ao ver outras pessoas, gente normal nas filas dos caixas, a sada pareceu mais racional. 
Mesmo assim, o corao estava acelerado. Se seus pais soubessem dessa aventura, ela estaria em maus lenis.
      Por que no desisti? Queria ter ficado no hotel. Por que estou fazendo isso?
      -Aqui, chamou Jane de uma das fileiras. Que tipo de anticido voc quer? Vamos depressa, temos de voltar!
      - No sei. Olha o que eles tm a. Eu volto j. Brittany correu como uma flecha para os fundos da farmcia.
      - Aonde ela vai? perguntou Cris.
      - No sei, mas  melhor irmos l ver, respondeu Jane. Encontraram Brittany no balco de medicamentos, pegando um saquinho que o balconista lhe entregava.
      - O que ela est fazendo? perguntou Jane.
      - Oh, no! disse Cris, horrorizada. Espero que no seja o que estou pensando.
      - O qu?
      Cris aproximou-se de Brittany quando ela se afastava do balco e confrontou-a corajosamente:
      - Isso a so os comprimidos de regime de sua me?
      - O que voc quer dizer com isso? respondeu Brittany, com um olhar perdido.
      - Brittany, repreendeu Jane. Voc nem mora com sua me! O que est tentando fazer?
      O balconista permanecera parado ali, observando as garotas. Brittany armou uma cena para que o homem visse.
      - No seja boba, Jane. No se lembra de que a me pediu que a gente pegasse o remdio dela quando parssemos na farmcia, a caminho de casa?
      Brittany arregalou os olhos, tentando convencer Jane a dar prosseguimento  histria.
      A outra no respondeu. Parecia que ia explodir a qualquer minuto. Virando-se, saiu batendo os ps pelo corredor, acompanhada por Cris.
      - Vamos sair daqui agora e voltar para o hotel. No acredito que ela tenha feito isso conosco!
      - Agora entendi, Jane, disse Cris baixinho. Brittany deve ter deixado o vidro vazio aqui de manh quando foi correr. Aquela cena toda da dor de.barriga era 
pra nos convencer a vir com ela pegar os comprimidos de emagrecimento.
      - Vamos. Vamos voltar para o hotel - agora! exclamou Jane, falando alto.
      - No acredito que ela tenha mentido to descaradamente pra ns. Por que eu no disse simplesmente "NO"!? reclamou Cris.
      - No precisamos contar pra ningum, disse Jane, quando chegavam  frente da loja. Vamos voltar depressa para o quarto e esperar a Brittany. Se a pegarem, 
diremos que ela no est com a gente.
      - Jane, ns no podemos mentir!
      - Por que no? Ela mentiu pra ns!
      Naquele momento, Brittany apareceu, encontrando-as na frente da loja.
      - A esto vocs, disse com a maior calma. Vamos embora? Cris e Jane trocaram olhares confusos.
      - Voc no vai comprar nada? perguntou Cris.
      - No, respondeu Brittany calmamente, abrindo a porta de vidro.
      Jane e Cris a seguiram, ansiosas por voltar para o hotel e acabar com toda aquela confuso. De repente, uma voz atrs delas soou alta e ameaadora:
      - Alto l, senhoritas!
      Um homem alto, de ombros largos, e vestindo um uniforme de segurana, ordenou:
      - Venham comigo, senhoritas.
      Caladas e amedrontadas, elas seguiram o segurana at um pequeno escritrio, no fundo da loja. Brittany, no comeo, ficou para trs. Depois, de repente, puxou 
a bolsa de Cris e segurou a. ala. Cris sentia a ala apertando seu ombro, enquanto Brittany sussurrava.
      - No precisamos passar por isso, sabe? Temos nossos direitos. Lembra-se do que a professora Ana sempre diz?
      - Esquea, Brittany. Essa foi a ltima vez que voc me convenceu a fazer qualquer coisa. Pode ter certeza disso!
      O guarda empurrou a porta do pequeno escritrio. Estava incrivelmente quente e abafado l dentro.
      - Sentem-se! ordenou ele, apontando um sof estreito no canto.
      Elas se apertaram para sentar, enquanto ele abria a porta dos fundos para deixar entrar um pouco do ar da noite.
      - Porcaria de ar condicionado! murmurou. Preciso perguntar algumas coisas a vocs, mocinhas.
      De costas para elas, ele ajustava o termostato do ar condicionado.
      - Vamos! cochichou Brittany, puxando Jane pelo brao e fugindo pela porta aberta.
      Cris deu um salto, depois sentou, e pulou de novo.
      - Sente-se! gritou o guarda. Ela obedeceu imediatamente.
      - Fique onde est! ordenou, correndo pela escurido, atrs das duas.
      Cris tremeu e lutou contra a vontade de fugir.  igual a noite em que "empapelamos" a casa do Rick! Elas correram e me deixaram sozinha! Que  que eu f ao? 
O que vai acontecer!
      Tremula, respirou fundo.
      No acredito que isto esteja acontecendo comigo! O que  que eu fao?
      No silncio, um pensamento veio de repente. Algo que havia lido: "No temas".
      Era parte do versculo da carta de Trcia! Cris pegou o envelope no bolso lateral da bolsa e retirou o carto. Leu pausadamente: "O Senhor  quem vai adiante 
de ti; ele ser contigo, no te deixar, nem te desamparar; no temas, nem te atemorizes." (Dt 31.8.)
      Cris sentiu uma grande calma tomar conta de seu corao, como um banho de chuveiro morninho. Leu o versculo vrias vezes. A sensao confortante continuou 
a aquec-la. Era como se Jesus estivesse bem ali, ao seu lado, abraando-a e falando-lhe baixinho. Cris no ouviu uma voz, nada disso. Mas foi o momento em que se 
sentiu mais prxima do Senhor, desde que o aceitara nas frias passadas.
      De repente o guarda apareceu na porta, suado, respirando forte.
      - Suas amigas devem ser experientes em fugas, disse tirando um leno, limpando a testa e parando junto  escrivaninha. No complique mais as coisas. Antes 
de mais nada, comeou, qual a sua idade?
      - Quinze anos.
      Ele tirou uma caderneta e comeou a escrever.
      - Vocs violaram o toque de recolher*. No se pode brincar com isso aqui em Palm Springs. Como  seu nome?
      *Em algumas cidades dos Estados Unidos, os menores no podem sair  rua desacompanhados,  noite, aps um horrio determinado pelas autoridades. (N. E.)
      - Cris Miller, ou melhor, Cristina Miller, senhor.
      - Nome e endereo dos pais?
      Ela deu o endereo e comeou a explicar, de maneira confusa, que se encontrava em Palm Springs com os tios.
      - Onde est hospedada? Em que hotel?
      - Bem, acho que  West alguma coisa... No me recordo. Ah! Talvez esteja na chave do quarto. Com as mo suadas, Cris puxou a bolsa para o colo e tateou, procurando 
a chave.
      De repente gelou. Em vez de sentir o metal liso e frio da chave do quarto, tocou num saco de papel, produzindo um barulho caracterstico. Era um saquinho branco 
de farmcia.
      - Posso ver isso? perguntou o guarda, pegando o pacotinho que Brittany havia enfiado dentro da bolsa de Cris, sem que ela percebesse.
      - No  meu, defendeu-se Cris. Eu no peguei isto.
      - Onde est o recibo? perguntou ele, pegando trs vidros de laxantes.
      Cris deu um suspiro.
      - No sei. No so meus!
      - E estes, so seus? perguntou, mostrando o vidro de moderador de apetite - um remdio controlado.
      - No! No! Verdade! No so meus!
      - Vamos deixar a polcia decidir isso.
      Continuou remexendo na bolsa, jogando o contedo sobre a mesa. Mexeu em sua carteira, passou o dedo pelas amostras de cores de tecido, sacudiu-as e, por ltimo, 
tirou o vidro de comprimidos. Havia s dois comprimidos que chocalhavam dentro dele.
      Oh, no! pensou Cris, com vontade de gritar. No! Por que no joguei fora esses comprimidos no dia em que Brittany me deu?! No acredito que ainda estejam 
a!
      O guarda leu a receita e, em seguida, abriu o vidro e examinou os comprimidos na palma da mo. Os olhos de Cris se encheram de lgrimas vendo-o abrir o novo 
vidro dos mesmos comprimidos, e comparar os dois.
      - Suponho que estes tambm no sejam seus.
      - No, senhor. Me deram isso. Mas no os tomei! Verdade!  por isso que ainda esto na minha bolsa. Esto a h semanas, respondeu ela meio gaguejante.
      - Entendi, disse ele, escrevendo rapidamente em um caderno. Em seguida, pegou o telefone e conversou com uma pessoa de nome Pat.
      -  isso a, Pat, falou. Tenho uma violao de toque de recolher, com possvel porte ilegal. Turista. Certo. Termino o relatrio at voc chegar aqui. Desligou 
o telefone e continuou escrevendo.
      - Agora posso ir? perguntou Cris, humildemente.
      - Ir?! Claro que no! Voc foi pega, senhorita, e sua vida toda est para mudar. Fique sentadinha a. A polcia j est vindo pra c.
      Polcia?! Por qu? Eu f alei a verdade. Os comprimidos no so meus.
      Cris no conseguia ficar quieta. O corpo todo tremia com as batidas do corao. Sentia o suor escorrendo, ensopando sua camisa e acumulando-se na cintura. 
Pensamentos confusos e terrveis se atropelavam em sua mente. Por que isso estava acontecendo com ela? Onde Brittany e Jane foram? Por que elas a tinham abandonado?
      A porta da saleta se abriu, e apareceu um policial gordo e baixo, com um grande bigode.
      - Siiiim! Quente aqui, hein?! O ar condicionado pifou de novo?
      - , Pat. Como vai voc?
      - Tudo bem. Essa  a suspeita?
      - Positivo. O nome dela  Miller, Cathy.
      - Cris, corrigiu a garota, com a voz fraquinha como o rangido de uma porta velha.
      Eles no estavam prestando ateno a ela. O segurana entregou ao policial os formulrios que estivera preenchendo.
      - Tem mais duas, da mesma idade. Mas elas fugiram. Essa aqui teve juzo suficiente para enfrentar a situao.
      - Entendi. Cathy, qual o nome de suas amigas?
      - Cris, replicou, ainda com voz apertada.
      - Uma delas  Cris? E a outra?
      O policial pegou a caneta e comeou a escrever na ficha de ocorrncia.
      - No, Cris Miller, ou melhor, Cristina Miller  o meu nome.  que o senhor me chamou de Cathy.
      - T bem, Cristina. E o nome das duas que estavam com voc?
      - Jane Layne e Brittany Taylor. Elas moram em Escondido.
      - E quem  Meriah Jasmine Taylor?
      - No sei.
      - Tem certeza?
      O policial levantou o vidro de remdio e leu novamente o nome no rtulo.
      - Ah, deve ser a me da Brittany. Eu no a conheo. Eles so divorciados. Os pais dela, quer dizer, os pais de Brittany... Ela mora com o pai. Harold Taylor.
      - Est bem, est bem, interrompeu o oficial. Vamos ento at o posto para acabar com isso. Essas acusaes so vim tanto srias. Sabe disso?
      Cris abanou a cabea, negando, e olhou para ele.
      - Senhorita Miller, voc tem o direito de permanecer calada. Caso abra mo desse direito, saiba que o que disser poder ser e ser usado contra voc num tribunal 
de justia...
      O oficial continuou recitando seus direitos, como se ela fosse uma criminosa. Parecia uma cena mal gravada de um filme antigo de televiso.
      - Venha comigo, disse ele.
      Segurou seu brao e levou-a at a viatura. Algumas pessoas que estavam no estacionamento olhavam para ela na escurido da noite. Ela se abaixou e entrou atrs. 
Havia uma grade de ferro entre a parte traseira e a frente, fazendo-a sentir-se enjaulada e sem esperana. Rodaram cerca de dois quilmetros at o policial de Palm 
Springs. Apenas as mensagens da radiopatrulha quebravam o silncio da noite.
      Cris sentia todo o corpo tremer. Seu queixo batia tanto que os dentes faziam barulho. Ela tentava continuar repetindo o versculo de novo: "O Senhor  quem 
vai adiante de ti; ele ser contigo, no te deixar, nem te desamparar; no temas, nem te atemorizes." (Dt 31.8.) Cada vez que o repetia, sentia-se um pouco mais 
forte, com a cabea mais fria.
      Entraram no saguo do posto policial e, quando o guarda parou diante do balco da frente, ela ficou observando um quadro na parede. J havia visto um quadro 
como aquele antes, de um garotinho e um policial enorme, sentados um ao lado do outro numa lanchonete. Ao que parecia, o menino tinha tentado fugir de casa, mas 
o homem o encontrara e estava pagando um lanche para ele. Cris nunca imaginara que viveria o papel do fugitivo. S que o que a levara ali no parecia ter a mnima 
inteno de trat-la bem!
      - Siga-me, disse ele, conduzindo-a por um corredor at uma sala pequena, com trs cadeiras. Sente-se. Agora fale-me desses laxantes e comprimidos que estava 
carregando, Onde os arrumou?
      - Minha amiga, Brittany, enfiou na minha bolsa. Eram dela.
      - Mas a receita era de Meriah Taylor, no de Brittany Taylor.
      - Acho que... isto , eram da me dela, mas a Brittany deixou os vidros vazios hoje pela manh na farmcia e voltou  noite pra peg-los cheios. Foi por isso 
que samos depois do toque de recolher. Mas eu e Jane achamos que ela estivesse mesmo passando mal. No sabamos que ela estava apenas nos usando.
      - Vamos comear de novo.
      Cris foi mais devagar e relatou toda a situao, comeando com a viagem para Palm Springs com os tios. Explicou que Brittany tinha-lhe dado os comprimidos 
havia semanas, e que ela estava carregando-os na bolsa, mas no havia tomado um sequer.
      - Voc sabia que est de posse de drogas ilegais o tempo todo?
      Cris abanou a cabea.
      - No, senhor. A Brittany s disse que eram comprimidos pra emagrecer.
      - Comprimidos controlados. Receitados para outra pessoa, no para voc. No  brincadeira.  violao de um cdigo de sade e segurana, relacionado com drogas. 
Isso vai ficar em sua ficha.
      - Mas, mas eu...
      - Quero que saiba que acredito que voc esteja falando a verdade sobre estar apenas carregando as drogas para sua amiga, e que no tenha tomado nenhuma. Mas 
voc est de posse dos remdios roubados e de drogas obtidas atravs de falsificao. Teremos de det-la aqui at contatarmos seus tios a fim de verificar a histria.
      Cris estava completamente parada, mas sua mente agitava-se de modo frentico. Lembrou-se das ilustraes na escola dominical, quando o Pedro Incrdulo derrubou 
facilmente a Katie Crist, puxando-a para seu nvel.
      Como isso acontece depressa! E se eu tivesse tomado o remdio como Brittany queria? Se tivesse dito "no", hoje  noite, e ficado no hotel, nada disso teria 
acontecido!
      Ento lembrou-se de Lillian dizendo que a gente enlouquece se ficar pensando "Se pelo menos..." Tenho de crer que Deus est no controle das coisas, mesmo agora!
      Um guarda levou Cris para tirar as impresses digitais. Passaram todos os seus dedos numa tinta preta, e ela ficou ali, olhando para os dedos sujos, sentindo-se 
imunda.
      Como era mesmo aquele versculo da escola dominical? "No vos enganeis; as ms conversaes corrompem os bons costumes." (l Co 15.33.) Sentiu-se "corrompida", 
e tentou limpar a tinta preta com uma toalha de papel spero.
      Uma policial, chaves tilintando no cinto, conduziu Cris por um corredor de celas. Pararam numa pequena sala com uma mquina fotogrfica. A mulher mandou Cris 
ficar em p sobre uma marca no cho, e um brao mecnico moveu-se  sua frente. Todo o seu corpo se estremeceu quando percebeu que nele havia um nmero. Um nmero 
de presidirio, em preto e branco. Olhou para a frente, e a cmera fotogrfica disparou um flash fortssimo. Virou-se de frente para a parede, e uma segunda fotografia 
foi tirada. Nunca, em toda sua vida, sentira-se assim: totalmente humilhada, completam ente incompreendida, suja, feia e m. Este momento doloroso estava sendo gravado, 
documentado e registrado com foto. Foi horrvel.
      - Os responsveis pela suspeita chegaram, disse o oficial, enfiando a cabea na saleta. Eu a levarei.
      Cris foi conduzida novamente ao saguo, onde Bob, Marta e Jane estavam sentados num banco. Ela aproximou-se receosa, cabisbaixa. Ento viu Brittany em p ao 
lado, de cabea erguida, com um aspecto tranquilo, calmo e confiante.
      - Cristina Juliet Miller! disse Marta, saltando do assento. Espero que voc saiba bem o problema que nos causou! Correndo no meio...
      - Eu cuido disso, Marta, disse Bob, estendendo a mo e apertando de leve o ombro de Cris. Voc est bem?
      Ela confirmou com um aceno, olhos cheios de lgrimas.
      - Desculpe, tio Bob. Ns no devamos ter sado do quarto. Estou to arrependida!
      - Muito bem, disse o policial chamado Pat, aproximando-se com um mao de papis na mo. Tenho certeza de que vocs esto ansiosos por esclarecer tudo. Vou 
falar com as meninas, uma de cada vez. Jane, quero conversar primeiro com voc.
      O jeito geralmente brincalho de Jane, de quem acabou de chegar do Taiti, havia desaparecido. Quando seguiu o policial pelo corredor, parecia to abalada quanto 
Cris.
      Brittany parecia totalmente indiferente. Permaneceu de p e olhava pela porta da frente, para a escurido da noite, como se estivesse prestando ateno a algo 
que acontecia l fora. Estava totalmente desligada. Cris sentiu pena dela. Queria tanto ser sua amiga e ajud-la! Mas talvez, a essa altura, Brittany precisasse 
de algo mais que uma amiga.
      - Voc disse a verdade ao policial? perguntou Marta, agarrando e enfiando as unhas no brao de Cris.
      - Ai! 
      Marta soltou.
      - Diga-me, querida, o que foi que aconteceu?
      - Eu disse tudo que sabia. Falei a verdade.
      Brittany virou-se para Cris com o olhar mais cheio de dio que ela j vira.
      -  claro que ela falou a verdade! defendeu Bob. Eu nunca esperaria de Cris outra coisa que no fosse a verdade.
      O olhar do tio, suas palavras e seu abrao inundaram Cris de um consolo do qual precisava desesperadamente. Sentiu-se aliviada e mais relaxada.
      Como se todas as tampas de suas emoes tivessem finalmente sido removidas, Cris inclinou-se, segurou a cabea entre as mos e chorou  vontade.
      - O que  que aconteceu com ela, Robert? O que voc fez com a pobre menina? perguntou Marta.
      - Deixe a menina chorar, Marta. Deixe-a chorar.
      Marta levantou-se e andou calmamente at Brittany. Colocou a mo de unhas perfeitamente cuidadas nas costas da garota e acariciou seu cabelo longo.
      - Brittany, querida, comeou Marta com doura. H alguma coisa sobre a qual voc queria conversar antes do interrogatrio?
      Cris levantou a cabea e enxugou os olhos, procurando ouvir com ateno a resposta de Brittany.
      - No.
      - Querida, sei que voc entende que isso  muito importante, e que estamos aqui para ajud-la no que for possvel.
      Brittany afastou-se, mas Marta no desistiu. Estava acostumada a forar a barra para que sua vontade fosse feita. Falando com firmeza, com a cabea erguida, 
olhando diretamente para Brittany, disse:
      - Voc sabe que esse problema  muito srio? Voc precisa de ajuda profissional, menina.
      Brittany afastou-se devagar, como uma cobra prestes a dar o bote. A inclinou a cabea para a frente, e soltou uma risada alta e insolente. Atnita, Marta 
procurou apoio em Bob. Ningum sabia o que fazer ou o que poderiam esperar dela no prximo instante. Brittany continuou rindo at as lgrimas descerem pelo rosto. 
Marta ficou em silncio total. O policial voltou com Jane e falou para Brittany acompanh-lo.
      Limpando as lgrimas e ainda rindo sozinha, a jovem acompanhou o policial Pat.
      - Que  que ela tem? perguntou Jane.
      - No sei, respondeu Cris, enxugando os olhos com um leno de papel oferecido por Marta. O que aconteceu com voc?
      - Ele me perguntou um monte de coisas, e falei o que sabia. Ele disse que acreditava em mim, e foi tudo.
      - O que aconteceu depois que vocs saram da farmcia? Jane sentou-se ao lado de Cris no banco e olhou para cima, para o quadro do menino com o guarda.
      - Sempre gostei desse quadro. Meu pai tem um livro grande de reprodues de quadros desse artista. Bob virou a cabea para olhar.
      - Normam Rockwell, disse. Gosto demais desse ilustrador.
      - Jane! insistiu Cris. Esquea o quadro e conte o que aconteceu!
      - Primeiro a Brittany agarrou meu brao e me tirou daquele escritrio. Acho que poderia ter-me soltado dela, mas no sabia o que fazer. Depois nos escondemos 
atrs de uma caamba de lixo nos fundos da loja e esperamos l at o segurana entrar novamente.
      - Por que fez isso?
      - No sei. Por que fizemos tudo isso? Aconteceu to depressa... Eu queria voltar para o hotel, mas a lembrei que no estvamos com a chave. Ento a Brittany 
falou "Ah, ? Estamos sim!" e mostrou a chave do quarto, dizendo que voc tinha dado para ela.
      - Eu no dei! Ela tirou da minha bolsa e deixou no lugar o saquinho da farmcia.
      - Est brincando!
      - No, no estou brincando!  por isso que fiquei nessa enrascada toda. Eles pensaram que eu  que estava usando as drogas controladas. Alm do mais, tinha 
trs caixas de laxantes no saco, que ela certamente no pretendia pagar.
      - Ento ela ia roub-las?
      - Parece que sim. Pelo menos foi disso que o guarda me acusou quando chamou a polcia. Jane encostou a cabea na parede.
      - Que confuso! Brittany assegurou que eles soltariam voc porque  menor. Nunca pensei que chamariam a polcia.
      - E ento, o que vocs fizeram? Correram de volta para o hotel e pensaram que eu voltaria danando? Muito obrigada!
      - No, espere! Deixe-me terminar. Ns fomos quase correndo para o hotel. Brittany no queria, mas fui imediatamente ao quarto de seus tios, chamei-os e contei 
tudo pra eles.
      - Ento eu e Jane fomos de carro direto para a farmcia, mas eles disseram que voc tinha sido trazida para c, completou Bob. Voltamos ao hotel, pegamos Brittany 
e Marta e viemos para c. Jane me contou tudo, Cris. No seja to dura consigo mesma. Est claro que a culpa  toda de Brittany. Vocs s cometeram o erro de no 
dizer "no" quando realmente deveriam.
      - O que ser que vai acontecer com ela? perguntou Cris.
      - Talvez voc devesse pensar no que vai acontecer com voc, Cristina. Isso no  uma brincadeira, repreendeu Marta. O policial entrou no saguo, sem Brittany 
e falou-lhes.
      - Muito bem, a histria foi confirmada. As acusaes contra sua sobrinha so mnimas. Isso constar na ficha dela - posse de drogas e suspeita de furto - mas 
poder ser retirado quando ela completar dezoito anos. Uma coisa dessas no deve estragar a vida de uma adolescente para sempre.
      Agora se mostrava mais manso, mais humano. No se parecia mais tanto com um "buldogue", como antes.
      - E a Brittany? perguntou Cris.
      - E eu? perguntou Jane.
      - Bem, Jane, voc fez a coisa certa ao contatar os adultos. A nica acusao contra voc  de violao do toque de recolher. Diante das circunstncias, deixamos 
passar.
      - O senhor vai ter de telefonar para meus pais ainda hoje?
      - J o fiz. Eles disseram que poderamos liber-la sob a guarda dos tios de sua amiga aqui. Estamos segurando a Brittany at que consigamos contatar o pai 
dela. Parece que ele no se encontra em casa.
      A idia de a polcia telefonar para seus pais deixou Cris apavorada. Corajosamente, ela perguntou:
      - Os senhores ligaram para os meus pais?
      - Sim, e eles no ficaram muito contentes com a situao. Bem, acrescentou o policial, olhando o relgio,  quase meia noite. Vou falar com o sargento para 
ver se podemos soltar a Brittany ainda hoje. Ela ter de se apresentar perante um juiz para o julgamento, dentro de um ms.
      - Ela vai ter de voltar para c? perguntou Bob.
      - No. Ser no tribunal da Comarca de ndio. Provavelmente ela comparecer no juizado de menores. Minha opinio  que eles exigiro que ela se matricule num 
programa de tratamento para o seu problema de alimentao. Talvez a coloquem em condicional e exijam que faa algum servio comunitrio.
      - Ser que o programa vai ajudar a resolver o problema dela? perguntou Cris. Estou muito preocupada com ela.
      O policial parou um instante e respondeu, demonstrando na voz uma sensibilidade que at ento no havia deixado transparecer.
      - Deixe-me dizer algo sobre anorexia e bulimia. A filha de meu irmo tinha dezesseis anos quando a internaram em um hospital. Ela estava pesando trinta e sete 
quilos e meio no dia da internao. Ficou l durante meses. Parecia estar gostando. Estava numa ala cheia de pessoas com o mesmo problema que ela. Alm disso, havia 
um psiquiatra com quem podia conversar sempre que quisesse. Meu irmo gastou milhares de dlares no tratamento, mas ela morreu assim mesmo. Encontraram-na cada 
no cho do banheiro, com uma caixa de laxantes que algum conseguiu passar para ela. Era uma moa linda. Poderia ter tido um grande futuro... concluiu ele, com voz 
embargada.
      Cris e Jane olharam uma para a outra, em silncio, chocadas.
      - Eu sabia que era coisa sria, disse Marta. Tentei falar com essa menina, mas ela simplesmente no escutava. Que isso seja uma lio para vocs duas! falou, 
olhando para Jane e Cris.
      - Garotas como ela precisam de ajuda, disse o oficial.  como se estivessem sempre ouvindo uma voz dentro delas, que lhes diz que so gordas e precisam emagrecer. 
Elas acham que, se forem bem magras, podero fazer, ter e ser o que quiserem.
      Virando-se para Jane e Cris, ele continuou:
      - Estou certo de que as duas tinham boas intenes; tentavam ajudar sua amiga. Mas o fato  que ela precisa de um  tipo de ajuda que vocs duas no podem dar. 
Se no se importam que eu lhes d um conselho, sugiro que pensem duas vezes antes de deixar outra pessoa conduzi-las a situaes perigosas. Poderia comprometer todo 
o seu futuro.
      
      

Uma Simples Palavra
12
      
      
      O som da Mercedes tocava uma msica que Bob acompanhava, cantarolando-a. Marta folheava uma revista em silncio. As trs moas permaneciam caladas no banco 
de trs. Ningum abria o bico.
      Cris observava o cenrio montono do deserto.  luz da manh, a paisagem ganhava diversas tonalidades de mbar. O calor j subia do asfalto como cobras coloridas, 
encantadas pelo sol.
      Naquele momento deveriam estar passeando de balo de ar quente ou de telefrico, ou ento estar aproveitando a piscina do hotel; no voltando para casa.
      Tinham arrumado as malas depressa, e sado cedo do hotel. Na noite anterior, o sargento concordara em soltar Brittany sob a guarda de Bob, desde que ele a 
levasse de volta para o pai, no dia seguinte.
      Na mente de Cris passavam-se cenas de pesadelo. Imaginava o que os pais lhe diriam quando chegasse em casa. Ser que eles entenderiam? Fechou os olhos e orou. 
Tentou lembrar do versculo que Trcia mandara e repetiu-o diversas vezes.
      Por volta de onze horas, Bob estacionava em frente  casa de Cris. Corajosamente ela abriu a porta e viu os pais, a me de Jane e o pai de Brittany, sentados 
 mesa da cozinha.
      - Onde est Brittany? perguntou o Sr. Taylor, saltando da cadeira.
      - No carro, respondeu Cris, procurando ver no rosto dos pais alguma indicao de como a tratariam.
      Sentia-se fraca e vazia, com vontade de correr para abra-los e receber conforto e segurana. Ao mesmo tempo, queria que eles entendessem que ela no era 
mais um bebe e que aprendera muito com a experincia. Queria que soubessem tambm que agora, mais do que nunca, poderiam confiar nela. Resolveu nunca mais seguir 
a cabea de outras pessoas.
      O Sr. Taylor correu para o carro, cumprimentando primeiro o Bob. Os velhos amigos apertaram as mos e conversaram rapidamente. Brittany desceu do carro, e 
Jane saiu logo depois. Cris ficou observando, e viu o Sr. Taylor apressar a filha para entrar no seu BMW. Parecia nervoso. Zangado. Envergonhado.
      - Vejo vocs outra hora! gritou ele, partindo em seguida. Bob tirou as malas do carro. Reinava um silncio desconfortvel.
      - Parece que estragamos o final de semana, disse Jane a Bob, com um olhar arrependido.
      A me de Jane cortou a tenso com uma boa risada.
      - Cus! Quando garota eu fiz coisas muito piores do que sair do hotel no meio da noite. Graas a Deus nenhuma de vocs se machucou.
      Jane e Cris entreolharam-se.
      - Ns tambm damos graas a Deus por isso, disse Jane, respondendo pelas duas.
      Agradecendo a Bob, Marta e Cris, Jane seguiu a me at o carro. Seu jeito alegre comeava a reaparecer na sua maneira de andar.
      Assim que o carro de Jane e sua me subiu a rua, a me de Cris convidou Bob e Marta para entrar, oferecendo caf a todos, enquanto se apertavam em volta da 
mesa da cozinha.
      No aguento esse suspense! pensou Cris. Por que no dizem alguma coisa?
      O lbio inferior formigava, e ela percebeu que o estivera mordendo nas ltimas duas horas.
      Finalmente seu pai tocou no assunto.
      - Cris, o que voc tem a dizer?
      Ela queria chorar, mas lutou contra as lgrimas.
      - Estou muito arrependida. Sei que nunca deveramos ter sado do quarto do hotel. Foi uma grande besteira, e eu devia ter convencido minhas amigas a no fazer 
isso.
      Todos os quatro fitavam-na. Sua vontade era entrar numa mquina do tempo e voltar atrs vinte e quatro horas. Teria agido de maneira bem diferente.
      - Pessoalmente, acho que Brittany  a culpada nesse caso, interrompeu Marta. Ela est enrolada num mundo de problemas e puxou as outras duas para baixo com 
ela. Estou aliviada porque ela vai ter a ajuda de que necessita.
      - Foi um mau negcio, sob todos os aspectos, disse Bob. Fiquei orgulhoso da Cris. A polcia deu um susto grande nela, mas ela provou que seu corao estava 
no lugar certo.
      - , mas o crebro no estava no, anunciou David do corredor.
      - David! V brincar l fora. Agora mesmo! ordenou seu pai.
      O garoto saiu correndo, e Cris no quis olhar para ele. Nos quinze minutos que se seguiram, os adultos discutiram a srie de eventos ocorridos. Cris sentia-se 
uma mera espectadora.
      Uma vez esclarecidos os fatos, a me de Cris virou-se para ela e perguntou:
      - Diga-nos o que voc aprendeu com tudo isso.
      - Aprendi que tenho de dizer "no". E que preciso escolher minhas amizades com cuidado.
      Cris achava estranho ter a ateno de todos voltada para ela.
      - Conheo algumas pessoas com mais de quarenta anos que ainda no aprenderam isso, disse Bob, com um sorriso confortante. Eu diria que o final de semana no 
foi uma perda total.
      - Aprendi tambm, acrescentou Cris, que no importa o que me acontecer, o Senhor sempre ir adiante de mim e estar comigo em todo tempo.
      Ela sentia um pouco mais de coragem, e de certeza de que sua promessa das frias passadas, para Jesus, fora verdadeira e duradoura.
      Ningum disse nada, Ser que no concordavam com ela? Ser que seus pais, seu tio e sua tia entendiam o que ela estava dizendo? Tudo lhe parecia to claro.
      - Contudo, comeou seu pai, ajeitando-se na cadeira, existem consequncias. Nas prximas duas semanas, voc no poder sair para lugar nenhum, a no ser para 
ir  escola. Nenhuma atividade social, entendeu?
      Cris acenou que sim, engolindo em seco. Tinha achado que o castigo seria ainda pior. Embora seus pais no tivessem falado claramente, ela sabia que eles estavam 
do seu lado em tudo isso.
      Naquela noite, ao escrever sobre esse fim-de-semana, em seu dirio, disse o seguinte:
      A nica coisa que vai ser difcil nesse castigo  no poder ir a igreja e ver o Rick. Nunca vejo ele na escola. quela tarde que fomos  Pizza Hut foi o melhor 
dia pra mim, desde que mudamos pra c. Rick provavelmente j se esqueceu de tudo. Talvez at j tenha outra namorada quando eu sair do castigo.
      Por que os rapazes agem assim? Eles parecem interessados na gente e, depois, se esquecem completamente que a gente existe.
      Como o Ted. Nunca me esquecerei dele. Jamais. Mas aposto que se ele me visse agora nem se lembraria do meu nome. Se os rapazes no fossem assim to esquisitos. 
Se pelo menos eles...
      Cris parou de escrever. Havia cado de novo no erro de pensar: "Se pelo menos..." Sabia que se entrasse nisso, acabaria deprimida.
      Guardando o dirio, escreveu um bilhete para Trcia.
      Voc no imagina o quanto aquele versculo que voc me enviou me ajudou. Veio numa hora em que eu precisava muito mesmo. Muito obrigada por ter pensado em 
mim e tirado um tempo pra me escrever.
      Fechou e selou o envelope; ento pegou um carto de aniversrio, atrasado, para Paula, que dizia: "Algo nos separou...". Dentro dizia "... alguns milhares 
de quilmetros! Espero que seu aniversrio tenha sido feliz no seu fim de mundo".
      Cris havia comprado o carto na loja de presentes do hotel, naquela manh. Parecia perfeito para Paula. Escreveu um pouco sobre o que estava acontecendo, mas 
sem entrar em muitos detalhes. No tinha certeza se ela entenderia, ento preferiu encurtar o assunto. A ltima linha foi:
      Estou ansiosa pra que cheguem as frias pra voc vir aqui. Vamos nos divertir pra valer. Sinto muito a sua f alta. Beijos, Cris.
      A ltima carta que escreveu foi para Alissa. Por alguma razo, sentia mais liberdade de contar para Alissa toda a enrascada de Palm Springs. Tambm falou-lhe 
sobre o versculo bblico que Trcia tinha escrito no carto, e como aquele trechinho da Palavra de Deus a havia ajudado e lhe trazido conforto quando mais precisava. 
Ento escreveu:
      Voc me perguntou por que eu estava dando tanta importncia ao fato de haver entregado minha vida a Jesus, se ele morreu, como Buda ou Maom. Bem, a  que 
est! Jesus no est morto.  verdade que ele morreu na cruz, mas depois ressuscitou e continua vivo at hoje.  uma coisa que no d pra explicar, mas ele vive 
dentro de mim.  to real quanto as outras pessoas com quem convivo. No o conheo to bem quanto quero, mas estamos nos conhecendo melhor a cada dia. Eu sempre 
orei (conversei com Deus). Mas agora estou comeando a lera Bblia, que  o mesmo que ouvir a voz dele.
      Voc devia comear a ler a Bblia e procurar uma boa igreja pra frequentar a em Boston. Vou comear a orar pra que encontre outros cristos que sejam fortes 
como o Ted, e que possam explicar tudo isso pra voc.
      Beijos,
      Cris.
      Colocando todas as cartas no cho, ao lado da cama, Cris entrou debaixo dos lenis cheirosos e limpos. Equilibrou o ursinho Puff sobre os joelhos, sentindo-se 
aliviada, leve e revigorada, como se tivesse colocado tudo em ordem. Estava pronta para comear vida nova na escola, no dia seguinte.
      - Olhe aqui, Puff, repita comigo: no, no, no e no! Quando estiver em dvida, fuja. No, no, no e no...
      Na manh seguinte Jane, o cabelo escuro, encaracolado, mais parecendo uma guirlanda de orqudeas negras, encontrou Cris no corredor.
      - Sabe de uma coisa? indagou com um gritinho animado. Voc acredita que o Greg me convidou para o jogo de home-coming* da prxima sexta-feira? D pra acreditar?
      *Tradicional nos colgios nos Estados Unidos, os jogos de "homecoming" so os mais importantes do ano.  quando ex-alunos e alunos competem, e os melhores 
jogadores so selecionados para ganhar bolsas de estudo em faculdades. (N. da T.)
      - Que timo! Mas no foi meio de ltima hora no?
      Jane no respondeu. Ficou com o olhar distante, parecendo estar com o pensamento muito longe... Cris sentiu que ela ficaria desligada um bom tempo.
      Depois da aula, Cris abriu o escaninho e tirou seus livros. Subitamente sentiu algum lhe dar um tapinha nas costas. Virou-se de repente, e seus livros voaram 
como se fossem pesos arremessados por um atleta. Olhou para os livros-esparramados no cho, aos ps de algum de tnis branco.
      Levantando a cabea devagar, viu uma cala jeans Levis, um casaco azul e dourado, chegando enfim aos olhos castanhos que s podiam ser do Rick.
      - Oi, disse ela rindo. Acertei voc? Foi sem querer. Isto , eu no vi...
      - J pensou em competir no atletismo? brincou Rick. Voc faz um arremesso de peso! Cris enrubesceu.
      - , parece que voc tem uma semana cheia pela frente, disse Rick com um sorriso, ajudando-a a pegar os livros.
      - No exatamente, replicou Cris.
      - Voc s quer parecer estudiosa, certo? Cris sentia que estava corando ainda mais. Suas bochechas na certa deviam estar vermelhinhas.
      - Voc vai dar uma parada nos estudos para assistir ao homecoming, na sexta-feira? perguntou Rick, encostando o brao no armrio.
      A garota abaixou a cabea.
      - No. No vou no, respondeu ela, na esperana de que ele no perguntasse por qu.
      Era vergonha demais admitir que estava de castigo.
      - No vai nem ao jogo para ver a gente vencer o "Vista High"?
      Cris olhou-o, hesitante, e abanou a cabea.
      - Vamos fazer o seguinte: Que tal eu pegar voc depois do jogo e irmos  festa do homecoming? sugeriu Rick, com voz grave e forte.
      Cris arregalou os olhos azul-esverdeados, quase sem acreditar no que estava ouvindo. Ele estava convidando-a para sair! O que deveria responder?
      - Rick, comeou Cris, procurando as palavras certas. Eu realmente gostaria de sair com voc. Mas, sabe ... bom, meus pais s me daro permisso pra sair sozinha 
com um rapaz depois que eu completar dezesseis anos, disse ela, respirando fundo.
      Imediatamente ela sentiu-se tomada de pnico. Ser que ele vai me achar infantil? Ser que estraguei tudo contando isso? Fitou o livro que estava segurando 
e, devagarinho, foi levantando o olhar novamente.
      Rick no se mexeu.
      - Talvez essa seja uma das coisas que tanto admiro em voc, disse ele, com um sorriso largo.
      Cris arregalou ainda mais os olhos, encarando-o atentamente.
      -  a sua sinceridade. Acho que as garotas mais lindas so as mais inocentes.
      Cris quase no acreditou no que ouvia. O corao disparou. Esse  o tipo de coisa que toda moa sonha ouvir de um rapaz! Ser que ele estava sendo sincero?
      - Ento, disse Rick, mudando os livros para o outro brao. Quando  o seu aniversrio? Cris riu.
      - S em julho. Vinte e sete de julho.
      - Ento s faltam oito, nove meses? Vale a pena esperar esse tempo por uma garota como voc.
      Cris no sabia o que fazer. Queria abra-lo e dizer que essa fora a coisa mais maravilhosa que algum j lhe falara. Queria dizer tambm que o achava o cara 
mais fantstico da face da terra. Contudo nenhuma palavra lhe vinha  boca. Tentava pensar em algo inteligente e legal para falar, mas s conseguia sorrir, engolir 
em seco, e sorrir novamente.
      - Voc vai  igreja domingo? perguntou Rick.
      - Sim. Minha famlia inteira vai. Hoje cedo meu pai disse que achava que j era hora de procurarmos uma boa igreja, e lhe contei que gostei muito da sua.
      - timo. Bem, preciso ir. Vejo voc no domingo, se no antes.
      - Tudo bem. A gente se v depois.
      Rick deu um sorriso e virou-se para ir embora. De repente, voltou e disse:
      - A propsito, posso telefonar para voc uma hora dessas?
      - Claro!
      - Voc no  jovem demais para receber telefonemas, ? brincou.
      Cris sentiu seu rosto ficar vermelho novamente. Nenhum rapaz a havia feito corar tanto.
      - No! respondeu rindo.
      - Muito bom! disse ele, inclinando a cabea e dando alguns passos para trs. Peguei seu nmero no carto da igreja. Ligo para voc qualquer hora.
      Cris voltou para casa como se estivesse flutuando numa nuvem. Durante uma hora e meia ficou relembrando a conversa, tudo o que Rick dissera, como ela reagira...
      Jane tinha dito que ele falava bonito, e falava mesmo! Cris achou maravilhoso. Ted nunca iria dizer aquelas coisas para ela. Rick a havia convidado para sair. 
Parecia um sonho! Mas por que ela sempre tinha de ficar vermelha? Na prxima vez que conversasse com ele, estaria mais confiante. Mais firme.
      David veio do quintal onde estava brincando e, entrando em casa, olhou para Cris, deitada no sof, com o olhar distante. - Que  que voc est olhando?
      Nada.
      O que voc est fazendo? Ah, s sonhando um pouco.
      O garoto afastou-se abanando a cabea. O telefone tocou, e Cris saltou do sof, mas David j havia atendido.
      - Alo, disse ele. Sim, ela est aqui.
      Cris agarrou o telefone da mo do irmo e, cobrindo o receptor, perguntou-lhe quem era.
      - Sei l. Um cara.
      O corao de Cris disparou quando encostou o fone no ouvido. Com confiana, ela disse:
      - Ol, Rick?
      - Rick? perguntou a voz masculina do outro lado.
      Cris esforava-se para tentar identificar a voz vagamente conhecida.
      - Alo? disse rapidamente.
      - A Cris est?
      -  Cris falando.
      - Ol, Cris, como vo as coisas?
      Foi ento que reconheceu a voz: era de Ted!
      - Ted? perguntou, quase sem acreditar.
      - . Como vo as coisas?
      - Ted! No acredito! Como est?
      - Comigo est tudo bem.
      - Como conseguiu meu nmero?
      - Telefonei para o seu tio.
      - Onde est?
      - Na Flrida. Na casa de minha me.
      - Bem, o que... quer dizer, como... quer dizer, bem,  s que estou surpresa em ouvi-lo, porque voc nunca escreveu nem nada. Arrependeu-se no momento em que 
disse isso.
      - , bem,  que no sou muito de escrever. No como voc. Suas cartas so incrveis.  como se eu estivesse a, falando cara a cara com voc.
      - E ento? O que anda acontecendo? Faz tempo que no tenho notcias suas.
      Cris contou rapidamente sobre o problema com Brittany, em Palm Springs. Ele escutou com ateno e depois disse:
      - , as amizades so assim mesmo. Ou elas levantam a gente ou derrubam de vez.
      - Sei exatamente o que voc quer dizer, respondeu ela. Tomei algumas decises importantes e assumi uma posio de dizer "no" s pessoas e s coisas que so 
ms influncias sobre mim.
      Pensou que Ted ficaria orgulhoso de sua deciso.
      - Parece legal, disse o rapaz, fazendo uma pequena pausa c continuando: Voc j comeou a dizer "sim"?
      - "Sim"? Mas a qu?
      - Para o Senhor.
      s vezes Cris achava difcil entender o jeito de pensar do Ted.
      - No sei se entendi bem o que voc quer dizer, respondeu ela com cautela.
      Detestava parecer ignorante, mas adorava ouvir os pensamentos profundos dele.
      - Quando me converti, explicou ele, comecei a dizer "no" a tudo: s drogas, s festas, aos velhos amigos, enfim a tudo. Logo, logo acabei ficando totalmente 
isolado. Sentia-me o cara mais esquisito da face da terra.
      - E da?
      - Foi a que entendi que precisava comear a dizer "sim" pra algumas coisas. Na verdade, dizer "no"  um bom comeo, mas ficar vazio no satisfaz, Ento comecei 
a dizer "sim" a Jesus.
      - Como assim?
      - Sabe, passei a procurar viver de acordo com os princpios de Deus. Primeiro, comecei a orar, depois a ler mais a Bblia, Foi ento que aprendi bastante sobre 
Deus. A maneira como ele age geralmente  o oposto do meu modo de agir. Depois fiz amizade com algumas pessoas que eram crentes de verdade e, antes que me desse 
conta, em lugar do vazio que havia ficado quando disse "no", minha vida encheu-se de coisas para as quais Jesus estava-me ensinando a dizer "sim".
      - Entendi, disse Cris, tentando coordenar todas aquelas idias. Ted provavelmente percebeu que ela estava um pouco confusa, porque acrescentou mais uma de 
suas famosas ilustraes.
       como aquela viagem para o Hava, de que lhe falei, lembra?
      Claro, nunca vou-me esquecer dessa histria!
      - Ento, imagine que voc esteja dentro de um grande navio, com tudo de que precisa a bordo. Eu no disse tudo que quer, mas tudo de que precisa. Voc embarcou 
com um monte de malas e sacolas cheias de coisas inteis que costumava usar quando estava em terra. Entendeu?
      - Sim, continue.
      - Ento voc tenta entrar em sua cabine, mas no consegue passar pela porta com todas aquelas malas e sacolas. Mas voc no quer soltar nada. Fica s olhando, 
enquanto as outras pessoas nadam, comem e jogam vlei, mas pra voc est tudo pssimo. A viagem est uma porcaria porque voc est carregando uma bagagem intil 
e super pesada. No consegue fazer mais nada. E a que resolve desfazer-se de toda aquela tralha. Joga tudo no mar. Foi o que eu fiz quando disse "no"  maconha, 
s festas e ao meu jeito de viver. Est entendendo?
      - Sim.
      - Mas veja bem. Isso no basta. S dizer "no"  o mesmo que esvaziar as mos e ficar parado, enquanto tantas coisas maravilhosas esto acontecendo  sua volta. 
Se voc for convidada pra jantar  mesa do capito, ou jogar vlei, ou o que seja, deve aceitar.  assim tambm com relao a ler a Bblia e envolver-se em uma boa 
igreja, junto com outros crentes fiis. Ento, voc entendeu?  dizer "no"  apenas um lado da vida crist. Se quisermos aproveitar a viagem, temos de comear a 
dizer "sim".
      Cris deu um suspiro.
      - Ted, no sei como voc consegue tantas ilustraes legais, mas gostei muito! Voc foi a pessoa que mais me ajudou a entender o significado real do cristianismo.
      -  por causa do tipo de crebro que tenho. Eu raciocino melhor utilizando ilustraes. Cris riu e disse:
      - Gosto muito das suas histrias.
      - . Acho que Jesus tambm gostava de fazer comparaes. A maior parte do tempo ele ensinava os amigos contando histrias. Voc j leu o livro de Joo?
      - No.
      A verdade, nua e crua,  que ela quase no lera a Bblia que ele lhe dera. Mas agora tencionava comear a ler um pouco a cada dia.
      -  um dos meus prediletos. Nesse livro h muitas dessas narrativas interessantes.
      Houve uma breve pausa meio embaraosa. Por alguma razo, os dois ficaram momentaneamente sem assunto. Cris tentava pensar em algo para dizer. No queria que 
ele desligasse.
      Ainda no!
      - Ah, sim! disse Ted. Eu telefonei foi pra contar que a minha me vai-se casar de novo.
      Cris no sabia o que responder.
      - Ah, parabns, ou, sei l o que a gente diz numa situao dessas...
      - O casamento ser em dezembro, e depois eles vo mudar-se pra Nova Iorque.
      - Voc tambm vai pra Nova Iorque?
      - Eu no. S minha me e o namorado. Vou voltar a morar com meu pai. Na praia de Newport.
      - Est brincando! disse Cris, quase gritando. Quando?!
      - Nas festas do fim de ano.
      - Que timo, Ted!
      - ,  legal. O que estou mais ansioso pra fazer  ir pra praia em alguma manh de inverno e preparar um caf da manh na areia. Eu e Sam fizemos isso uns 
dois anos atrs. Queimamos os ovos, mas o bacon saiu gostoso. No h nada como a praia no inverno. Quase gosto mais do que no vero. Fica totalmente deserta, exceto 
por alguns surfistas mais dures e um milho de gaivotas.
      - Ted, isso  fantstico! Estou louca pra te encontrar de novo!
      - . Vai ser bom ver voc. Olha, tenho que desligar agora. Me faa um favor, procure aprender a fazer ovos mexidos, est bem?
      - Tudo bem. Por qu?
      - Assim a gente vai ter uma comidinha legal quando formos tomar o caf da manh na praia.
      Cris deu uma risada.
      - Est bem, vou treinar sempre que tiver oportunidade.
      - Tchau, Cris, e olha: comece a dizer "sim" pra Jesus. Ele  o melhor amigo que se pode ter.
      - Vou fazer isso. Tchau, Ted.
      Ela esperou ouvir o "dique" do outro lado da linha. Ento desligou e foi direto para o quarto. Seu irmozinho sapeca estava na porta da cozinha.
      - Quem era? perguntou ele.
      Cris agarrou-o e plantou-lhe um beijo estalado na bochecha.
      - Eca! reclamou ele.
      Cris deu uma risadinha e fechou suavemente a porta do quarto. Rodopiou duas vezes, afofou o travesseiro, abraou o ursinho Puff, e recostou-se na cabeceira 
da cama.
      Com o corao transbordando de alegria, Cris ergueu o rosto e fitou o teto, sorridente. Ento, imaginando que Jesus, seu melhor amigo, havia enchido o quarto 
com sua presena, fechou os olhos e sussurrou uma nica palavra: "Sim".
      
      FIM



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